Nossos Músicos: Natan Schwartzman

por Camila Frésca 01/09/2005

O professor Natan Schwartzman, que neste ano comemora 75 anos de idade e nada menos do que 60 de carreira, é certamente um dos maiores violinistas que o Brasil já produziu. Começou a tocar por influência do pai, nascido na Romênia e apaixonado pelos violinistas ciganos que via passar nas carruagens. Já morando no Brasil, deu um violino de presente ao filho que completava oito anos. Com uma técnica impecável e um absoluto domínio de arco, Natan conta de que forma sua carreira tomou rumo: “Aos 17 anos minha professora disse que eu deveria largar a escola pra me dedicar mais ao violino. Meu pai não concordou com a ideia, mas ao me ver chateado, fez uma proposta: ‘não vou levar em consideração o que sua professora fala, mas sim o que disser um grande violinista mundial que aparecer no Rio de Janeiro”. Eis que dois ou três meses depois vem ao Rio de Janeiro Zino Francescatti, e o pai sentencia, “é esse aí”. O menino, preocupado, argumenta, “mas pai, logo ele? É um dos três ou quatro melhores do mundo!” O pai mostrou-se irredutível, e lá se foram encontrar o grande Francescatti no Hotel Glória. Muito simpático, o mestre o ouviu e sentenciou: “Ele vai sair da escola, sim. Mas para estudar com meu grande amigo Ivan Galamian na Juilliard School, em Nova York”.

E assim foi que o jovem Natan, aos 17 anos, iniciou uma carreira traçada por poucos instrumentistas brasileiros – e talvez por nenhum outro violinista. Aos 20 anos ganhou o concurso para spalla da orquestra sinfônica da Juilliard School, “numa época em que estudava de oito a nove horas por dia”, afirma. Aos 23, já no Brasil, venceu por unanimidade o concorridíssimo concurso da Osesp, tornando-se o primeiro spalla da orquestra, que nascia sob a batuta de Souza Lima, em 1953. Mas ele ainda voltaria a estudar com um outro mestre. Em 1958, ao receber uma bolsa do governo britânico, foi para Londres aperfeiçoar-se com Max Rostal, o grande professor da escola franco-belga de violino. “Sou o único brasileiro que estudou com as duas maiores sumidades como professores do mundo: Ivan Galamian e Max Rostal.”

A partir daí consolidou-se uma carreira que o levou a se apresentar em diversas salas dos EUA e Europa, além de atuar como solista da maioria das orquestras sinfônicas do Brasil. Dentre os vários prêmios que ganhou, destaca-se o que lhe rendeu um contrato de solista-recitalista da BBC, no período em que era bolsista do governo inglês.

Além de concertista, Natan desenvolveu extensa carreira pedagógica, formando muitos dos violinistas que hoje atuam nas orquestras brasileiras. Foi o primeiro professor de violino da UnB e, durante 23 anos, deu aulas na Unicamp. Saindo de lá foi convidado pelo maestro Olivier Toni para dar aulas na USP, onde ficou até ter de se aposentar de forma compulsória aos 70 anos.

Gravou diversos LPs, dentre os quais se destaca o “Recital de peças brasileiras”, disco premiado lançado em 1964 e que é um primoroso registro de obras de Camargo Guarnieri, Francisco Mignone e José Siqueira, entre outros.

Foi homenageado pela Orquestra Sinfônica de Campinas ao completar 60 anos, e pelo corpo docente da USP ao completar 70. Mas que não se pense que este artista vive apenas rememorando as glórias do passado. Com diversos projetos, Natan Schwartzman encontra-se extremamente animado com a série de concertos do Quarteto Sampa, que vai apresentar músicas populares em arranjos camerísticos. Além disso está escrevendo um livro baseado em suas experiências como concertista, solista, camerista e professor. “É minha idéia fundamental que o violinista ache o verdadeiro sentido dos dedilhados e arcadas nas peças que executa.”

Mais alguma coisa, professor? “Quero aproveitar essa oportunidade e convidar os leitores da Revista CONCERTO para ouvirem meus quatro programas Arco em movimento, este mês na Rádio Cultura FM, nos dias 4, 11, 18 e 25, às 22h”.

[Artigo originalmente publicado na edição de setembro de 2005 da Revista CONCERTO.]