Óperas do Theatro Municipal revelam diversidade do gênero

por Nelson Rubens Kunze 27/04/2015

É difícil encontrar qualquer paralelo entre a ópera Um homem só, de Camargo Guarnieri (1907-1993), e Ainadamar, do argentino Osvaldo Golijov (nascido em 1960), ambas em cartaz como dobradinha no Theatro Municipal de São Paulo. Um homem só, que tem libreto do dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri (nenhum parentesco com o compositor), é um título brasileiro, cantado em português. A música do nacionalista Guarnieri não traz menções folclóricas explícitas, é bem construída e tem interessantes passagens camerísticas. Falta a ela, contudo, caráter de teatralidade; ela se desenvolve em um plano abstrato, sem uma condução narrativa. O libreto trata da solidão do homem, que não é mais reconhecido por ninguém, e de sua alienação da sociedade. A estrutura dramática é subdividida nas diversas sequências vividas pelo personagem, como sua procura pela família, a noite com uma mulher, a visita ao médico ou o encontro com operários no trabalho.



Rodrigo Esteves como o protagonista da ópera Um homem só [fotos: Heloísa Ballarini/divulgação]


Ainadamar é baseada em um libreto do norte-americano David Henry Hwang, e conta as lembranças da atriz catalã Margarita Xirgu, que rememora seu encontro com o escritor Federico García Lorca, o enfrentamento dele com a falange da ditadura espanhola até seu trágico assassinato. A música, que traz a marca do pastiche estilístico do compositor, apresenta desde influências da música sefardita até cantos folclóricos latino-americanos, tudo unido em uma grande malha sonora de forte apelo emocional. Golijov também usa sons gravados de água e outros ruídos, até discursos dos carrascos falangistas. Para que se garanta o equilíbrio sonoro, os cantores tiveram a voz amplificada por microfones. Ainadamar, com sua mensagem direta de liberdade e justiça, com suas triviais mas cativantes soluções harmônicas e rítmicas, funciona bem (ainda que um pouco longa) e tende ao formato de um musical.



Luigi Schifano, como Federico García Lorca, em cena com bailarinos, em Ainadamar


Foram bons e competentes os elencos, cada um a sua maneira. Na ópera tradicional de Guarnieri, apresentaram-se bem os brasileiros Rodrigo Esteves, Luciana Bueno, Saulo Javan, Miguel Geraldi e Rubens Medina. Aqui, contaram as inflexões tímbricas e a projeção da voz (em algumas passagens da récita de estreia, dia 22, Luciana Bueno acabou um pouco encoberta pela orquestra). Já esses aspectos mais sutis ficaram de lado no elenco microfonado de Ainadamar, em que todas as vozes soaram iguais e com volume adequado. Destacaram-se as intervenções da soprano Marisú Pavón, de agudos cristalinos e estudados vibratos. Mas foram também boas as participações de Luigi Schifano como Lorca e de Camila Titinger como Nuria, bem como do restante do elenco (Alfredo Tejada, Carla Cottini, Monique Corado, Rodrigo Esteves, Rubens Medina e Miguel Geraldi). Rica e apropriada foi a interpretação de García Lorca feito pelo ator Jarbas Homem de Mello. A Orquestra Sinfônica Municipal, o Coral Lírico e os bailarinos (selecionados por meio de audições exclusivamente para a montagem), com importantes intervenções em Ainadamar, apresentaram-se bem, sob a direção musical e regência do maestro chileno Rodolfo Fischer.


Mas, se os diferentes títulos e a competência artística dos intérpretes já valem o ingresso, é o ótimo trabalho do diretor cênico e iluminador Caetano Vilela que realmente faz a diferença. Caetano criou praticamente duas encenações, uma para cada ópera, e cada uma delas em absoluta sintonia com a obra em questão (cenários de Nicolàs Boni, figurinos de Olintho Malaquias). Em Um homem só, Caetano deu dinâmica ao espetáculo, com soluções de grande engenhosidade – o que incluiu planos inclinados, painéis com deslocamentos e esteiras rolantes –, em cenas de bom gosto e bonitos resultados plásticos. Já em Ainadamar, também deixando-se contagiar pela música, Caetano mesclou flamenco com efeitos de luz e cenários multicoloridos, sempre apresentando soluções criativas e de grande impacto sensorial.


O que não fez muito sentido, pela absoluta diversidade de caráter, foi a justaposição dos dois títulos. E creio que, nesse contexto, Um homem só de Guarnieri acabou em franca desvantagem, na sombra do show de apelo fácil de Golijov.





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[Nota atualizada às 16h40 do dia 27/4/2015]


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