Preludiando música

por Leonardo Martinelli 02/08/2010

A última edição do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão – que se encerrou no último domingo – foi marcada pela mudança de sua direção executiva e artística, que elegeu como tema para este ano o mote “a música e seus diálogos”. Por conta desta proposta fui convidado pela direção do evento a iniciar um projeto até então inédito na história do festival, qual seja, estabelecer um diálogo sistemático entre o evento e plateia, por meio de breves introduções sobre o repertório do concerto.

 

A ideia em si, claro, não é nova. Por exemplo, o maestro Leandro Oliveira vem há anos realizando uma série de palestras intituladas “Falando de música na OSESP” (muito informativas e sempre com ótimo público). Meus colegas de Site CONCERTO Irineu Franco Perpetuo e João Marcos Coelho realizam o mesmo tipo de trabalho nos concertos produzidos pela Art Invest e CPFL, respectivamente. Já o violista Marcelo Jaffé (um comunicador nato) há tempos faz a introdução dos concertos ao ar livre promovidos pelo Mozarteum Brasileiro, além daqueles que ele mesmo participa. Maestros como Alex Klein e João Maurício Galindo também se notabilizaram pelos diálogos que estabelecem com suas audiências.


Leonardo Martinelli durante palestra em Campos do Jordão [Foto: divulgação]

No famoso festival que todo mês de julho aquece os gélidos ares da Serra da Mantiqueira o bate-papo com a plateia, quando ocorria, era apenas esporádico, dependendo mais da vontade individual de um maestro ou outro músico, mas jamais como uma política do evento. De minha parte, não era a primeira vez que fazia tal tipo de trabalho, pois anos atrás, quando assinei a curadoria dos concertos dominicais do Centro Cultural Fiesp, também fazia de forma sistemática pequenas introduções antes dos concertos.

Mas este trabalho para o Festival de Campos do Jordão mostrou-se algo de uma envergadura muito maior. Não apenas pelo calibre das atrações que deveria preludiar – consegue imaginar a responsabilidade de subir ao palco antes de Antonio Meneses, Maria João Pires, Arnaldo Cohen, OSESP, OSB etc.? – mas também pela imensa quantidade e variedade de repertórios. Desde a música de câmara barroca até a música contemporânea orquestral, com passagens pela música medieval e o cross-over das extravagantes cadências do violinista Gilles Apap, poucos foram os gêneros e os períodos da história de música não abordados na programação deste ano. Normalmente tinha a incumbência de fazer a apresentação dos dois concertos de cada dia: o da tarde, em alguma igreja, e o da noite, no Auditório Cláudio Santoro. Mas entre sexta e domingo este número subia para quatro, dada uma natural concentração de eventos nos finais de semana. Apenas em poucas situações fui substituído.

Não foi um cotidiano fácil, pois além das apresentações em si havia a parte mais laboriosa de todo este processo, isto é, a preparação destas introduções. Lógico, meus modestos anos como professor de história da música e estética musical me ajudaram, e muito, nesta tarefa. Mas ainda assim estudar as especificidades do repertório de cada apresentação era um trabalho árduo, na mesma proporção que gratificante. Para minhas introduções – que o bom senso reza para que sejam curtas – procurei adotar um certo padrão das informações que ofereceria, sempre explicando aspectos sociais e/ou históricos da peça ou do compositor, aliados a breves pitadas técnicas (evitando ao máximo o jargão musical), de forma a propiciar um pontapé inicial no processo de apreciação musical da audiência. Claro, um pouco de bom-humor não faria mal ninguém...

Mas, e aí? Tudo isto serviu para alguma coisa? Bem, esta é uma pergunta que, honestamente, não sou a pessoa mais indicada para responder. Entretanto, o feed back que tive do público ao longo do evento me mostrou não a pertinência, mas sim a urgência deste tipo de aproximação com a audiência nos espetáculos clássicos. Nos inevitáveis 15 minutos de fama que este trabalhou me proporcionou, em nenhum momento precisei dar um autógrafo, mas em compensação, onde quer que eu andasse pelas ruas de Campos do Jordão era abordado pelos mais diferentes tipos com uma frase que viria a ouvir muitas vezes em julho: “me explica uma coisa...”.

Desde a diferença entre sinfônica e filarmônica, do significado da palavra opus ou aspectos da vida íntima de Chopin, vários foram os temas aos quais fui indagado por pessoas que tinham assistido a algum concerto anteriormente. Percebi na pele que é indiscutível a demanda por espetáculos clássicos no Brasil e que esta demanda é necessariamente acompanhada por uma sede de conhecimento e curiosidade sobre os assuntos que orbitam a música de concerto.

Percebi que informar é a tarefa inicial de qualquer pessoa que faça este tipo de trabalho. Mas a questão vai muito além da mera informação, pois uma vez isto realizado a contento, abre-se um apetite muito maior na audiência, instigando-a a continuar – de concerto em concerto – sua aventura pelo maravilhoso mundo da música.