Surpresa sergipana

por Leonardo Martinelli 19/05/2009

Na última década a cena clássica brasileira tem passado por profundas mudanças, especialmente no âmbito da música sinfônica. Entretanto, é bem sabido que tais mudanças têm sido mais efetivas nas orquestras sediadas nas capitais do sudeste, tendo a Osesp de John Neschling como paradigma. Entretanto, várias ações de relevância têm sido realizadas em outras regiões do país, e a mais recente e feliz surpresa vem do Sergipe, que desde 2006 tem realizado um profundo processo de reestruturação de sua sinfônica, a ORSSE, sob a coordenação de seu diretor artístico e regente titular, o jovem Guilherme Mannis.

No último domingo, 17 de maio, a Orsse encerrou em São Paulo sua primeira turnê nacional, que incluiu concertos em Aracaju, Curitiba, Rio de Janeiro e Brasília. No melhor estilo “se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, a orquestra surpreendeu o público paulistano presente numa surpreendentemente lotada Sala São Paulo, em meio a um domingo cheio de ótimas opções de espetáculos clássicos.

Sob a regência de Mannis, a ORSSE abriu a noite com a obra “Toronubá” do compositor gaúcho Dimitri Cervo. Claudicando entre um proto-minimalismo à la Glass e clichês orquestrais hollywoodianos, a obra foi, no entanto, um bom momento para se testemunhar a sincronia e precisão das cordas da orquestra, em meio às intervenções da percussão e do piano.

Entretanto, era a “Suíte nº 1 para orquestra de câmara”, de Villa-Lobos, que a ORSSE tinha como desafio principal. De escritura heterogênea e dinâmica, a obra foi um excelente meio da orquestra exibir suas conquistas: cordas coesas e afinadas (com notável precisão em seus pizzicati), metais equilibrados com o todo orquestral e madeiras que desempenharam uma notável execução não apenas em grupo, como também em passagens solistas, entre as quais se destacou a primeira-flauta do conjunto, Clara Rodrigues, em seu extenso e musical solo no movimento final da peça.

Para a segunda parte do espetáculo foi programado o “Concerto para piano e orquestra nº 3”, de Rachmaninov, com solos de Alvaro Siviero. Programar um “concertão” famoso e bem-quisto como este é uma estratégia comum, adotada por orquestras de todo mundo quando se enveredam para além de seus domínios, visando garantir um percentual líquido e certo de público. Entretanto, no concerto da ORSSE a escolha não foi um mero estratagema. Com uma interpretação um tanto contida, mas a sua maneira “correta”, Siviero mostra segurança em seu tocar, qualidade de suma importância em obra tão difícil como esta.

Apesar de um concerto ser naturalmente o momento do solista, foi também uma boa oportunidade de verificar a naturalidade da regência de Mannis, que aqui e acolá ainda deixa transparecer certos gestos típicos da regência de Neschling (que foi seu principal professor de regência).

Finda a apresentação, o término da turnê da ORSSE deixa várias lições. Primeira, que se deve estar disponível ao novo, pois sim, uma orquestra nordestina pode surpreender a esta audiência que vê e ouve de tudo. Segunda, a reformulação da ORSSE mostra que o nordeste e outras regiões do país teriam plenas condições e potencial de realizar vários outros projetos musicais de relevância cultural e social, que neste caso específico, incluiu ainda uma nova sala de concerto (o Teatro Tobias Barreto de Aracaju), especialmente projetada como sede da orquestra, algo que muitos grupos sinfônicos do país não têm. Terceira, que tão importante quanto a parte técnica, é a realização de uma boa programação, e a ORSSE surpreende novamente ao anunciar ninguém menos que o compositor Michel Legrand em pessoa para realizar sua parcela nas comemorações do ano da França no Brasil, em junho próximo.