O Brahms profundo e espontâneo de Nelson Freire

O resultado é tão encantador que só espanta que esse encontro não tenha acontecido antes. Finalmente Nelson Freire resolveu dedicar um álbum solo a um dos compositores com cujo mundo sonoro tem maior identificação: o alemão Johannes Brahms (1883-1897).

Da última vez em que ele entrou em estúdio para gravar Brahms, a crítica internacional se rendeu. Em 2007, sua interpretação dos concertos do compositor alemão com a Orquestra Gewandhaus, de Leipzig, regida por Riccardo Chailly, foi escolhida como a Gravação do Ano, no prêmio Gramophone Awards. “Esse é o lançamento dos concertos de Brahms que estávamos esperando”, festejou, à época, Jed Distler, nas páginas da revista britânica.

A bem da verdade, Brahms foi um dos primeiros autores que Freire abordou em disco, na juventude: as sessões de abril de 1967, em Winterthur, viraram dois LPs da CBS, lançados dois anos mais tarde – um com o Carnaval op. 9, de Schumann, e os Improvisos op. 90, de Schubert, e outro com a Rapsódia op. 119 nº 4, o Capriccio op. 76 nº 2 e a Sonata nº 3, de Brahms (todo esse material foi relançado em CD, na caixa The Complete Columbia Album Collection, da Sony). Depois disso, nunca mais. E a identificação de Nelson Freire com o mundo brahmsiano é tão grande que a gente se pergunta o porquê...

Meio século atrás, a qualidade musical já era incandescente, e não deixa de ser curioso notar como, ao revisitar a Sonata, Freire basicamente mantém os tempos que adotava na década de 1960.

O disco está concebido como um recital, cuja primeira metade é a sonata, com a segunda constituindo em uma seleção muito pessoal e cuidadosa de peças breves, com dois Intermezzos op. 76 e, sobretudo, o pianismo tardio de Brahms: alguns dos op. 116, 117 e 118, e as quatro obras do op. 119. Como todo recital de Nelson Freire inclui pelo menos um bis, aqui a função é cumprida com singeleza pela Valsa op. 39 nº 15.

De todos os discos do Reverendo Nelson, esse foi o primeiro que me fez pensar nele como um regente em potencial, tamanho seu domínio da estrutura arquitetônica das peças e das diversas vozes da polifonia. Freire demonstra comando intelectual completo das partituras, sem que isso se traduza em artificialismo. Muito pelo contrário: seu discurso musical é sempre fluente e espontâneo, como se tocar Brahms com essa profundidade fosse a coisa mais natural do mundo. Como alguém que se acomodasse numa rede, de bermuda e chinelos, e enunciasse verdades filosóficas transformadoras no tom de voz de quem narra os mais corriqueiros eventos cotidianos.

No caso de Nelson Freire, essa narração sempre é dotada de qualidades de canto. Capaz de transmitir tanto o fogo das obras de juventude quanto o intimismo das peças tardias, Freire, com sua sonoridade sedutora e aveludada, nos faz lembrar o tempo todo de que Brahms foi também um destacado autor de lieder.

Sorte dos cariocas que, em 22 de novembro, na sala Cecília Meireles, na série da Dell’Arte, poderão conferir seu talento ao vivo, em recital solo.

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