Robert Musil, um artista e seu tempo

por João Marcos Coelho 01/11/2018

Lançamento de O papel mata-moscas e outros textos mostra a atualidade e a genialidade do escritor austríaco

É espantosa a semelhança entre a realidade dilacerada que vivemos hoje por aqui e a sensação do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942), que vivia numa Europa à beira do abismo. Em comum, sentimo-nos, como Musil, impotentes e à mercê dos acontecimentos. Foi isso que me levou a compartilhar com vocês algumas impressões sobre O papel mata-moscas e outros textos, de Musil, recentemente lançado no Brasil em primorosa edição da Carambaia.

Se você ainda frequenta livrarias – e deveria, para manter sua sanidade mental e sentir-se provocado por uma boa capa e um bom título de livro ou mesmo para ter o prazer de folhear e ler trechos a fim de avaliar se vale a pena levá-lo para casa –, não deixe de ler numa delas ao menos o texto inicial deste pequeno-grande livro que reúne escritos datados de 1913 a 1937. O que dá título ao livro é de 1913, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. São quatro páginas apenas, que começam assim: “O papel mata-moscas Tanglefoot tem mais ou menos 16 cm de comprimento e 31 cm de largura; é coberto por uma cola amarela e envenenada e vem do Canadá. Quando uma mosca pousa sobre ele – não por estar especialmente ávida, mas seguindo uma convenção, afinal de contas já há tantas outras ali [itálico meu] –, fica colada primeiro apenas pelas extremidades dobradas de todas as perninhas. Uma sensação bem suave e estranha, como se estivéssemos andando no escuro e pisássemos descalços sobre alguma coisa que ainda não é nada além de uma resistência mole, morna, confusa, e já é alguma coisa para onde flui, aos poucos, a humanidade atroz, o reconhecimento de uma mão que de algum modo jaz ali e nos segura com cinco dedos cada vez mais palpáveis!”.

Só esse primeiro parágrafo já lhe daria atualidade. Mas o livrinho nos reserva muitas outras surpresas. Há poucas semanas, o Brasil foi comparado a um cavalo; e, em “Um cavalo pode rir?”, o tratador brinca fazendo cócegas no cavalo enquanto o lava, e este parece rir. E o tratador é quem, na verdade, “relincha de tanto rir”. Em “O melro”, os personagens são Aum e Adois, e o narrador acaba “fugindo para a Alemanha, onde o individualismo atingia seu pico inflacionário”, faz “todo tipo de negócios escusos, em parte por necessidade, em parte por prazer de estar de novo em um velho país, no qual se podem cometer injustiças sem ter de se envergonhar”. Do genial ensaio mais alentado, quase sessenta páginas, adianto só o título: “Sobre a estupidez”. Os demais textos curtos são igualmente ferinos, irônicos, sutis.

Em “Ser europeu, guerra, ser alemão” (1914), depois de constatar que “a guerra, em outras épocas um problema, hoje é um fato”, Musil raciocina que “nós, que talvez por muito tempo sejamos os últimos europeus, não haveremos de querer confiar, em hora tão séria, em verdades que não mais eram verdades para nós; e temos de, antes de partir, pôr nosso testamento espiritual em ordem”.

Quando fala de arte, Musil se refere quase sempre a escritores. No entanto, se substituirmos por “músicos” ou “compositores”, os raciocínios continuam válidos. Por exemplo: “Quem escreve uma abobrinha que todo mundo engole encontra muitos leitores, e quem tem muitos leitores é um grande homem; pois quem fatura muito leva outros a faturar, que por sua vez o louvam e respeitam”. Ele não deve ter lido, mas tem tudo a ver com a teoria do medalhão de Machado de Assis, não é?

Robert Musil [Reprodução]
Robert Musil [Reprodução]

Um punhado de finos aforismos dá ainda mais o que pensar, na parte final do livro. Sobre “o conceito de gênio”, ele diz que “jamais deveriam ter dito que um gênio está cem anos à frente de seu tempo. Ouvir isso aborreceu muito as pessoas e fez com que se voltassem contra tudo o que é genial. A afirmativa também gerou e sustentou idiotas. E, no fundo, ela nem chega a ser verdadeira, pelo menos em parte; pois justo os indivíduos geniais representam o espírito de seu tempo, ainda que seja contra a vontade e a consciência de seu tempo. Talvez fosse mais correto e mais educativo dizer que o ser humano mediano está cem anos atrás de seu tempo”. Bingo: é por isso que a criação contemporânea é quase sempre marginalizada, com a desculpa esfarrapada de que está muito à frente de seu tempo. Pois, acrescenta outro aforismo, quase um haicai: “A imortalidade das obras de arte é seu caráter indigesto”. Também tem a coragem de chamar atenção para um detalhe fundamental: às vezes o novo pode ser ruim. “A juventude superestima o que há de mais novo porque sente que tem sua idade. Por isso é uma dupla tragédia quando o que há de mais novo em seu tempo é ruim.”

Musil, como o Proust de Em busca do tempo perdido e o Mann de A montanha mágica, é autor muito citado e pouco lido. Sua obra-prima, O homem sem qualidades, chega perto das 1.300 páginas. E, no entanto, ele tem em comum com os citados não só a genialidade, mas o gosto de combinar ficção e ensaio, reflexões que nos fazem pensar e nos tornam mais atentos à realidade que nos envolve como um papel mata-moscas. Por isso, Musil, Mann e Proust são atemporais, sempre atuais.

Duvida? Então aceite a sugestão. Entre numa livraria, peça O homem sem qualidades e leia lá mesmo dois capítulos curtíssimos, de três páginas cada: o oitavo, “Kakania”, e o 77, “Arnheim, amigo dos jornalistas”. Do oitavo: “Na Kakania só se tomava um gênio por patife, nunca se tomava um patife por gênio, como acontecia em outras partes”; e, no 77, ele nos leva a uma redação de jornal que recebe a visita do sr. Platão (sim, aquele mesmo, o filósofo grego). 


Para ler
O papel mata-moscas e outros textos, de Robert Musil; tradução de Marcelo Backes. São Paulo: Carambaia, 2018. 180 pp.
O homem sem qualidades, de Robert Musil; tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 (formato bolso). 1.274 pp.