Em um mar revolto de sonoridades poderosas

por João Marcos Coelho 09/03/2026

Não me lembro de um concerto de abertura de temporada como o da Osesp, tão fascinante, tão atual e capaz de nos fazer entender que a música deve ser mais do que um “spa” que nos poupa

Concertos de abertura de temporadas sinfônicas costumam ser concebidos mais como celebração do passado do que propriamente uma radiografia do nosso tempo. Pois o maestro Thierry Fischer rompeu a mesmice habitual e conseguiu o impossível: mais do que unir a celebração (da Nona de Beethoven) com a música contemporânea (Gruppen, de Stockhausen) e uma pitada de Villa-Lobos, construiu um retrato real e verdadeiro dos fraturados tempos que o planeta vive neste 2026.

Afinal, o sentimento de nós todos – nas Américas, Oriente Médio, Ásia, África, Europa – é de tensão pela multiplicação de conflitos e guerras regionais. Pois foi justamente assim que se sentiram Beethoven e Stockhausen. O primeiro, já doente no final da vida, em 1824, escolheu o poema de Schiller para clamar contra os confrontos entre os homens e lembrar os homens de que somos todos irmãos. Isso num ambiente político conservador, no período pós-Napoleão, em que Viena, capital do Império Austro-Húngaro, vivia sob cerrada censura e repressão. O segundo, nascido numa família de agricultores, perdeu os pais no período nazista: o pai morreu em combate, e a mãe foi uma das vítimas do programa de eutanásia nazista. O adolescente Stockhausen (nasceu em 1928) foi socorrista atrás das linhas de frente em colapso: cuidava de soldados cujos rostos ficaram desfiguradas pelos ferimentos em combate.

Gruppen é o retrato do mundo despedaçado – sobretudo a Alemanha – do pós-guerra, nos anos 1950. A Nona propõe o utópico sonho da fraternidade universal, num universo igualmente conturbado. 

Outro detalhe que me chamou a atenção. No caderno com a programação completa de 2026 da orquestra a ordem pensada de início era convencional: uma peça curta – a transcrição que Villa-Lobos, devoto de Bach, fez da Fantasia e fuga em dó menor, BWV 557; Gruppen; e a Nona na segunda parte. Os dois últimos meses de preparação inverteram a ordem. E o que a princípio me pareceu incoerente funcionou muito bem: o concerto abriu com Gruppen e a Fantasia unidas num só fluxo sonoro – ligadas apenas por um pedal grave. Ótima sacada.

Imerso num mar revolto de sonoridades poderosas – as três orquestras dispostas em ferradura –, o público não despregou olhos e ouvidos ora atraído por momentos percussivos mais intensos, ora pelas cordas, mas sobretudo pelos sopros, que na parte final brilharam em ondas sonoras que literalmente “passearam” pelas orquestras. Não me lembro de uma obra contemporânea parruda como Gruppen ter atraído tanto a atenção do público. Nenhum sinal de repúdio às sonoridades agressivas, ou pela ausência de qualquer fio condutor. Melhor: o fio condutor foi os três espaços ora dialogaram entre si, ora se enfrentaram. 

Ela foi composta setenta anos atrás. E permanece tão atual como a Nona, campeã neste quesito (popular e obra central da humanidade nos últimos 202 anos). Lembrei-me de uma frase de Scott Burnham num livro sobre o compositor. Ele escreveu que “Beethoven continua a nos estimular, a nos provocar, e não podemos deixá-lo ir embora porque sua música permanece uma provocação sonora que nos coloca diante do que adoramos pensar que é o melhor de nós mesmos”. Dá pra aplicar a frase a Stockhausen, trocando este final “o melhor de nós mesmos” por “o pior de nós mesmos”. Seu mundo é hoje tão impactante quanto foi sete décadas atrás. 

Uma das grandes sacadas de Gruppen é fazer da espacialização do som o motor da obra. Philippe Albéra, no artigo “Modernidade II - A forma musical”, escreve que “a idéia de um percurso formal que se inventa, no todo ou em parte, no instante da realização [da obra musical] vincula-se a uma outra abertura: a do espaço sonoro”. Ele compara o espaço centrado da música tonal ao perspectivismo na pintura.  E o abstracionismo à espacialidade. Pioneiro em Gruppen, Stockhausen foi mais fundo em sua obra seguinte, ampliando a espacialização: Carré, para quatro orquestras e quatro coros espaço é polivalente, formando “constelações”. Seu passo seguinte foi eliminar os músicos, fazendo música acusmática, com as “orquestras” de alto-falantes. Mas recuou. Em 1993, seu Quarteto de cordas Helicóptero distribui os integrantes de um quarteto, cada qual num helicóptero: em cada aeronave, o músico, técnico de som e câmeras filmando em tempo real os quatro interpretando a obra. 

Mas voltemos ao concerto. Assisti na manhã de domingo. E, como o público que lotou a Sala São Paulo, tenho certeza que todos nós que lá estávamos saímos enriquecidos. E por dois motivos. O primeiro, mais corriqueiro, é a emoção que cada execução da Nona de Beethoven provoca toda vez que a compartilhamos em concerto. Você sai energizado, imaginando que um dia os habitantes deste planeta – incluindo e sobretudo os poderosos de plantão – priorizarão nossa sobrevivência em estado de convivência pacífica. Mas o segundo sentimento para mim foi muito mais poderoso: o de que a música contemporânea vai mais fundo ao nos questionar sobre nosso mundo atual. Afinal, gostamos de nos enxergar melhores do que de fato somos. Pois as músicas do nosso tempo provocam mais do que sentimentos e emoções (sempre referentes a um passado melhor?). Elas são retratos cruelmente verdadeiros de nossas realidades.

P.S.: não me lembro de um concerto de abertura de temporada tão fascinante, tão atual e capaz de nos fazer entender que a música deve ser mais do que um “spa” que nos poupa, mesmo sendo apenas pelo tempo que assistimos a um concerto. Parabéns à Osesp e a Thierry Fischer. Por que não abrir a temporada de 2027 com uma obra de duração maior do que os costumeiros 8 a 15 minutos e sem limitação de instrumentação, encomendada a um compositor brasileiro? 


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A Osesp dividida em três para apresentar 'Gruppen' [Divulgação/Íris Zanetti]
A Osesp dividida em três para apresentar 'Gruppen' [Divulgação/Íris Zanetti]

 

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