Uma nova história da música brasileira

por João Marcos Coelho 01/03/2019

Projeto "Brasil em Concerto", idealizado pelo Itamaraty, terá trinta CDs que recuperam compositores jogados em um limbo

Cem obras sinfônicas de compositores brasileiros em trinta CDs que resgatam, sobretudo, repertórios que saem do limbo em que elas foram jogadas por uma narrativa histórica da música brasileira que fez de Villa-Lobos o primeiro e único gênio da Terra, demiurgo cuja sombra recalcou tudo o que veio antes dele – e mesmo o que veio depois. Limbo, não. Algumas foram até gravadas no passado mais remoto, mas precariamente. Pode-se afirmar que, quando as gravações do projeto “Brasil em Concerto” estiverem circulando no Brasil e internacionalmente, porque os CDs serão produzidos pela Naxos, nossa compreensão da música brasileira orquestral terá se alterado de forma radical.

Um projeto desses, com a participação de três orquestras – as filarmônicas de Minas Gerais e Goiás e a Osesp –, envolvendo uma gravadora como a Naxos e inúmeras instituições, como o Departamento Cultural do Itamaraty e a Academia Brasileira de Música, normalmente levaria uma década para se transformar em realidade.

Pois – e é a hora de repetir, desta vez de modo realista e com os pés no chão – nunca antes neste país se viu uma coisa dessas. Decorreram apenas dois anos entre a ideia, nascida na virada de 2016 para 2017 com o conselheiro Gustavo de Sá, chefe da Divisão de Operações de Difusão Cultural do Itamaraty, e o primeiro CD, lançado no Brasil pelo selo CLÁSSICOS e no mercado internacional pela Naxos como parte da coleção The Music of Brazil. Nele, a excelente Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, sob regência de Fabio Mechetti, interpreta a Sinfonia em sol menor de Alberto Nepomuceno e outras de suas peças, como o prelúdio de O garatuja e a Série brasileira, que rendeu dois “hits” ao compositor cearense: o lindo movimento inicial, “Alvorada na serra”, construído sobre a canção folclórica Sapo cururu; e o “Batuque” final, com a primeira inclusão de reco-recos em música sinfônica brasileira. Leia mais sobre o CD na página 46.

Um autêntico milagre de eficiência e coordenação, que se deve creditar a Gustavo de Sá, não por acaso com sólida formação musical (é clarinetista, estudou composição na Universidade de Brasília e depois aperfeiçoou-se com a compositora Aviya Kopelman em Israel). “Paralelamente”, diz ele, “pesquisei muito o repertório brasileiro, o que foi a base para a montagem desse projeto”.

E o que descobriu em suas pesquisas é surpreendente: uma produção sinfônica “imensa”, mas “submersa”. Depois de dar como exemplo as 128 obras para orquestra de Francisco Mignone, das miniaturas às de grande porte, “volume maior que a produção inteira em todos os gêneros da maioria dos compositores do século XX”, Gustavo afirma com segurança que “a grande parte da música sinfônica brasileira está submersa, porque nunca foi editada, porque as partes se perderam ou se encontram em manuscritos que nenhuma orquestra se anima a enfrentar ou mesmo porque o material existe, mas está inacessível por motivos diversos. São inúmeros os obstáculos, e tudo isso contribui para fazer a música brasileira cair no esquecimento”.

Brasil em Concerto

Um voo rápido sobre o repertório: a Filarmônica de Minas Gerais grava Nepomuceno, Almeida Prado, Lorenzo Fernández (duas sinfonias), Carlos Gomes e Henrique Oswald (as duas sinfonias e Elegia). A Filarmônica de Goiás dedica sete CDs às 14 sinfonias de Claudio Santoro, incluindo concertos e obras menores; Edino Krieger; o oratório Candomblé e outras obras do esquecido José Siqueira em três CDs; e outros três CDs com obras de Guerra-Peixe. A Osesp grava os concertos para piano e violoncelo em três CDs de Villa-Lobos; as obras concertantes e Fantasias brasileiras para piano e orquestra, de Francisco Mignone em dois CDs; o ciclo completo dos Choros de Camargo Guarnieri em dois CDs; e a Sinfonia dos orixás e outras obras sinfônicas de Almeida Prado em dois CDs.

Ao saber do investimento do Itamaraty, sinto-me obrigado a repetir “nunca antes neste país”, porque “seu custo está, no momento, em R$ 700 mil”, revela Gustavo de Sá. “A Naxos participa da produção e da distribuição, um investimento e tanto e que é o que mais nos interessa. Não houve qualquer condição diferente para nós. O investimento médio do Itamaraty é de R$ 50 mil por CD, cobrindo gravação e masterização, o que varia caso a caso, com eventuais aportes complementares por parte das orquestras.”

São naturais “alguns ajustes e despesas acessórias”, mas, afirma Gustavo de Sá, “o investimento do Itamaraty será de menos de R$ 1 milhão no total, até 2023. É nada, portanto”. Concordo em gênero, número e grau. É nada mesmo quando se pensa no triplo impacto extraordinário que acarretará: para as orquestras envolvidas, para nosso público, que descobrirá maravilhas que lhe foram negadas até agora na vida musical brasileira; e internacionalmente, porque gravar essas obras significa restaurar e estabelecer edições críticas que permitirão a qualquer orquestra do planeta executá-las.

Perguntei a Gustavo qual foi a maior dificuldade para colocar num só projeto as orquestras, a Academia Brasileira de Música e o Itamaraty. Sua resposta: “O grande problema foi mesmo o absurdo labirinto burocrático para o estabelecimento das parcerias. A legislação vigente a respeito de convênios e parcerias é o maior entrave à realização de qualquer iniciativa dessa natureza. Se o ministério e as orquestras não estivessem muito convencidos da necessidade desse projeto, não tenho dúvidas de que não teria acontecido. Pelo contrário, depois dessa experiência, hoje entendo melhor por que certas coisas nunca foram feitas antes”.  

Clique aqui para ler a entrevista com Gustavo de Sá.