O retrato de um pianista quando jovem

por Leonardo Martinelli 01/03/2019

Aos 23 anos, Lucas Thomazinho dá seus primeiros passos na carreira profissional

A história do piano remete ao início do século XVIII, quando um novo modelo de instrumento de teclas foi apresentado ao mundo pelo italiano Bartolomeo Cristofori. Entretanto, foi necessário mais de um século para que a figura do pianista se consolidasse como uma das personagens mais importantes da cena musical do Ocidente. O século XIX foi o berço dos grandes virtuosos do piano, que compuseram a própria música que tocariam para plateias e, eventualmente, ganharam uns trocos a mais com a venda das partituras. Assim ocorreu com pianistas como Schumann, Chopin, Brahms e Liszt, para citar alguns dos mais famosos e que hoje celebramos exclusivamente como compositores.

No entanto, como nada passou incólume à modernidade, também a categoria dos pianistas viveu mudanças dramáticas ao longo do século XX. Uma vez estabelecido o cânone do instrumento, em vez de publicações de obras próprias, a popularidade de um pianista passou a ser medida pela venda de álbuns de LPs, CDs e, hoje, pela demanda de downloads e de streamings. As aparições em saraus, em ambientes informais e para pequenas plateias deram lugar a concertos e recitais em grandes salas e teatros. O acesso a esses palcos passou a ser feito, sobretudo, pela reputação a partir da atuação em concursos, nos quais, tal como numa Olimpíada, jovens pianistas, de diferentes partes do planeta, se reúnem para disputar o primeiro lugar.

É exatamente no início da transição entre a rotina de estudos para concursos e as apresentações em palcos profissionais que se encontra a carreira do pianista paulistano Lucas Thomazinho, que neste mês volta a se apresentar na Sala São Paulo. O jovem músico já esteve outras vezes nesse consagrado palco clássico, mas desta vez trata-se de um passo especialmente importante: Thomazinho vai solar a virtuosística Totentanz, de Franz Liszt, acompanhado pela Osesp, sob a batuta de sua regente titular, Marin Alsop.

Lucas Thomazinho [Divulgação]
Lucas Thomazinho [Divulgação]

Sua presença em lugar tão prestigiado se explica: além de ser um dos mais talentosos pianistas brasileiros de sua geração, Thomazinho já foi premiado em diversos concursos e foi finalista da última edição do Santander International Piano Competition, na Espanha.

Natural de São Paulo, o jovem pianista se dedica à música e a seu instrumento desde os 9 anos de idade. Foi também na capital paulista que iniciou seus estudos, sendo um dos notáveis egressos da Fundação Magda Tagliaferro, onde teve aulas com Zilda Candida dos Santos, Armando Fava Filho e Flavio Varani. Como a maioria dos jovens pianistas dos tempos modernos, Thomazinho finaliza o curso superior; no caso, sob orientação do célebre pianista carioca Eduardo Monteiro, professor da USP, onde, além de lidar com dedilhados e escalas, terá também de enfrentar jornadas ao teclado do computador e redigir seu trabalho de conclusão de curso (TCC). Para além das demandas acadêmicas, há de se ressaltar o belo TCC prático que o músico lançou no ano passado, o CD Ricordanza, que, patrocinado pela Cultura Artística, registra boas interpretações de obras de Camargo Guarnieri, Carlos Gomes, Czerny, Liszt, Granados e Scriabin. E, como seria natural para um músico de seu talento situado à periferia da cultura clássica mundial, Thomazinho volta cada vez mais seu olhar para o exterior – já neste ano, iniciou uma verdadeira peregrinação de viagens, entrevistas e testes no Estados Unidos, onde pleiteia o mestrado em renomadas instituições de ensino de música em cidades como Nova York, Boston e Cleveland. Além, claro, de outros concursos internacionais.

Muita água (e notas) ainda hão de rolar na vida e na carreira desse jovem artista, que neste ano pode ter seu talento conferido em diversas situações: além do concerto junto à Osesp, em agosto Thomazinho atuará como solista com a Filarmônica de Minas Gerais e, em abril, com a Orquestra Experimental de Repertório, mesmo mês em que realizará um recital solo em outro importante palco clássico brasileiro, a Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. A tudo isso soma-se um concerto de câmara em junho na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, em São Paulo, ao lado da violinista norte-americana Elizabeth Chang. São mais alguns promissores passos na vida profissional desse importante talento musical brasileiro. 


AGENDA
Lucas Thomazinho
e Benedek Horváth – pianos / Carlos dos Santos e Rubens de Oliveira – percussão
Dia 14, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop
– regente / Lucas Thomazinho – piano
Dias 28, 29 e 30, Sala São Paulo