Recomeços

Entrevista com o maestro Ira Levin

Nos últimos tempos, não faltaram notícias tristes relacionadas ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que condenou seus artistas a uma situação de penúria. Para ajudar a virar o jogo, depois de meses de especulação, a casa confirmou oficialmente a contratação do norte-americano radicado em Berlim Ira Levin como seu regente titular.

Levin desembarcou no Brasil em 2002, quando assumiu a direção artística e musical do Theatro Municipal de São Paulo, onde ficou até 2005. Posteriormente comandou, entre 2007 e 2010, a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, em Brasília, e foi o principal regente convidado do Teatro Colón, em Buenos Aires, de 2011 a 2015. Na carreira, contabiliza mais de 1.200 performances de noventa títulos operísticos diferentes. Demonstra ainda virtuosismo ao teclado, tendo estudado com o legendário pianista cubano Jorge Bolet (1914-90).

Neste mês, ele rege a Orquestra Jovem do Estado, no dia 13, na Sala São Paulo, com a mezzo soprano Denise de Freitas como solista. No dia 11, a Naxos deve lançar internacionalmente o disco em que ele comanda a Orquestra Estatal de Frankfurt-Bradenburg em obras de Max Reger. E, em novembro, no Rio de Janeiro, dirige a apresentação da soprano russa Hibla Gerzmava, na série Grandes Vozes, e, em seguida, duas obras de Tchaikovsky: a ópera Ievguêni Oniéguin e o balé O lago dos cisnes. Os planos para 2020 incluem o balé As criaturas de Prometeu, de Beethoven, e a ópera Yerma, de Heitor Villa-Lobos.

Ira Levin [Divulgação / Michael Reinecke]
Ira Levin [Divulgação / Michael Reinecke]

Depois do Theatro Municipal de São Paulo e da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, em Brasília, o senhor agora assume a direção musical do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Como encara essa tarefa?
Há muita coisa a fazer além de reger: cuidar da modernização do arquivo, de mudanças de infraestrutura, falar com patrocinadores… Nos últimos anos, só houve notícias negativas, e precisamos mudar essa percepção. Há muitos desafios. Em compensação, tenho uma infraestrutura humana, uma equipe musical e de orquestra que não tive em São Paulo nem em Brasília. Essa é a diferença. E consegui mudar as coisas nesses lugares mesmo sem ter isso. A orquestra conta com músicos maravilhosos e já está tocando em nível diferente. O coro é excelente, a casa é linda. O desafio é revitalizar o lugar. Essa orquestra vem de anos de frustração, sem receber em dia etc. Depois que alguns músicos se aposentaram, as vagas não foram preenchidas. Disseram-me que eu poderia contratar gente.

O senhor já fez vários trabalhos em parceria com o diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, André Heller-Lopes. Só em 2019, foram O caso Makropoulos, de Janácek, no Theatro São Pedro, em São Paulo, e Fausto, de Gounod, no Rio. Como é trabalhar com ele?
André tem um enorme conhecimento de ópera, e faz muita diferença trabalhar com um diretor artístico assim. Mesmo na Alemanha, é raro alguém com esse conhecimento. Podemos ter uma conversa direta, e já é a base para fazer um bom trabalho. Agora, não é questão para um ou dois meses. Coisas já mudaram, mas este é um ano de transição, e as coisas não acontecem de um dia para o outro. Nossa perspectiva para 2020 já é bem melhor. Temos patrocínios em vista, estamos conversando com embaixadas, estou falando com casas de ópera importantes da Alemanha para coproduções. Mas tudo depende do apoio que vamos ter. Não temos o mesmo orçamento de São Paulo, mas agora o trabalho de verdade está começando. Na orquestra, por exemplo: como tudo era feito de última hora e os músicos não sabiam antes o que iam tocar, os ensaios eram basicamente leituras. Agora quero que eles tenham o material com antecedência. De qualquer forma, isso é um processo que estamos começando após anos, décadas de tradições ruins.

Poderia adiantar alguns itens da programação do ano que vem?
Estamos planejando uma série de concertos, que está em discussão com a Sala Cecília Meireles. A ideia é levar repertório raro. Como Haydn, um gigante da história da música, do qual a orquestra só tocou umas quatro sinfonias nas últimas décadas. Para o ano Beethoven, 2020, estamos pensando em fazer As criaturas de Prometeu como balé – acho que isso nunca foi feito no Brasil. Não faria sentido tocarmos todas as sinfonias de Beethoven, quando todo mundo já fez e vai fazer isso.

O senhor nasceu nos Estados Unidos e mora na Alemanha, onde trabalhou durante muito tempo. Quais são as especificidades do meio musical brasileiro?
O maior problema no Brasil é a infraestrutura, esse sobe e desce drástico. Na Alemanha, teatros e orquestras estão lá há anos, as coisas continuam, com mais ou menos dinheiro. Claro que a luta por dinheiro é um desafio mundial. Mas uma situação como a do Theatro Municipal do Rio de Janeiro não aconteceria na Alemanha. O maior desafio é a continuidade. E, com os anos, aprendi a mudar minha abordagem. Estou mais relaxado e agora entendi que devemos tratar os músicos de forma diferente de como seria na Europa. Temos que entender que a vida do músico brasileiro não é fácil, que ele muitas vezes está com o salário atrasado, antes de simplesmente o criticar. E, no fim do dia, o resultado às vezes tem mais frescor e humanidade que na Europa. O público é sanguíneo, aberto, e há muitos músicos talentosos, como na Orquestra Jovem do Estado. A questão é: para onde eles vão? Gostaria de poder incorporá-los, criar algo como uma escola superior, para oferecer prática aos jovens. Quem sabe conseguimos empregar alguns desses jovens talentos nas vagas a ser preenchidas em nossa orquestra.

Como foi montado o repertório do concerto que o senhor faz neste mês com a Orquestra Jovem do Estado?
Fui eu quem pedi para tocar com a orquestra, depois de ouvi-la na Segunda sinfonia de Mahler. Os talentos são incríveis. O programa foi decidido em conjunto. Gosto de fazer repertório raro, mas, para músicos jovens, que querem se profissionalizar, é importante tocar o repertório standard. O concerto vai ter três compositores que são contemporâneos e, como eles queriam tocar Uma vida de herói, de Strauss, que utiliza orquestra grande, não quis desperdiçar essa quantidade de músicos. Então faremos as Canções de um viajante, de Mahler, e Três fragmentos de Wozzeck, de Berg, compositor que, em muitos sentidos, é um continuador de Mahler.

Como o senhor pensa o papel do Theatro Municipal do Rio de Janeiro na vida musical brasileira?
O Municipal do Rio de Janeiro é a maior casa de ópera do Brasil e fica na cidade do país que tem mais exposição internacional. Ele pode e deve desempenhar um papel maior. De certa forma, o desafio é maior do que foi em São Paulo. Pois há a questão do dinheiro. Nosso Fausto, de Gounod, em julho, foi um grande sucesso: sete récitas com ingressos esgotados. Agora que sou oficialmente o regente titular, já posso abordar as pessoas, fazer contatos. Temos maior segurança para o ano que vem; devemos fazer a ópera Yerma, de Villa-Lobos, e estamos planejando também as temporadas de 2021 e 2022. Supomos que haverá anos de estabilidade. Eu estou otimista. Todo lugar tem seus desafios. Em vez de ficar choramingando, vamos fazer o que é necessário.

Neste fim de ano, suas atividades no Rio de Janeiro giram em torno de música russa e de Tchaikovsky, com Ievguêni Oniéguin e o balé O lago dos cisnes. Qual sua afinidade com esse repertório?
Eu amo Ievguêni Oniéguin, que não é feito no Rio há anos, e, embora não seja um regente que trabalhou especialmente com balé, regi os três grandes balés de Tchaikovsky; Boris Godunov, de Mussorgsky; no Teatro Colón, de Buenos Aires, fiz duas óperas de Rachmaninov, Aleko e Francesca da Rimini… Eu me sinto tão próximo do repertório russo quanto do alemão. 

Em outubro, a Naxos lança um CD no qual o senhor rege obras do compositor alemão Max Reger (1873-1916). Como surgiu esse projeto?
Depois de fazer umas 35 transcrições de obras para piano solo, comecei a orquestrar obras como a Sonata para piano op. 5, de Brahms, o Quinteto com piano de César Franck, a Sonata para violino de Respighi e Cinco peças para piano de Rachmaninov. Uma dessas transcrições foi das Variações e fuga sobre um tema de J. S.Bach op. 81, de Max Reger – obra que, no original, tem uma textura que não é pianística, mas orquestral. Eu regi essa peça algumas vezes, e a performance, filmada, foi incluída em Max Reger: The Last Giant, uma caixa de seis DVDs que saiu em 2016 e foi lançada internacionalmente. A produtora do DVD autorizou, e a gravação está sendo lançada internacionalmente pela Naxos, junto com os Quatro poemas sinfônicos a partir de Arnold Böcklin op. 128. Fico feliz, pois considero Max Reger um compositor muito negligenciado. E agora a Naxos está interessada em minhas outras orquestrações, que estou conferindo como gravar. Estou empolgado, porque são orquestrações que fiz porque queria, apenas para mim mesmo, e agora estão todas publicadas, foram tocadas e merecem gravação. 

O senhor vai se mudar de volta para o Brasil?
Passarei a maior parte do ano no Brasil, mas vou manter meu apartamento em Berlim, os projetos e os contatos na Europa. Quero ver como as coisas andam, mas não ligo de me mudar para o Rio de Janeiro. Gosto muito da cidade, como gosto de trabalhar no Brasil. Agora que conheço bem o país, com as coisas como elas vêm. Estou muito feliz com a oportunidade e com o convite de André Heller-Lopes.

Obrigado pela entrevista. 


AGENDA
Orquestra Jovem do Estado
Ira Levin
– regente
Denise de Freitas – mezzo soprano
Dia 13, Sala São Paulo