Ópera Piedade: três perguntas para João Guilherme Ripper

por Redação CONCERTO 18/07/2018

O Theatro Municipal de São Paulo apresenta nesta sexta e sábado, dias 20 e 21 de julho, em versão de concerto, a ópera Piedade, do compositor brasileiro João Guilherme Ripper. A obra é baseada na história real do escritor Euclides de Cunha que, ao descobrir que sua esposa Anna mantinha um caso com o militar Dilermando, pegou o trem até o bairro de Piedade, onde, após disparar contra o rival, acabou alvejado e morto. 

A regência é de Luiz Fernando Malheiro, à frente da Orquestra Sinfônica Municipal, com o barítono Homero Velho, o tenor Eric Herrero e a soprano Laura Pisani no elenco.

A obra foi estreada em 2012 pela Orquestra Petrobras Sinfônica e, no ano passado, ganhou montagem no Teatro Colón, de Buenos Aires. Sobre o processo de composição da ópera, Ripper conversou com o Site CONCERTO.

Piedade não é sua primeira ópera baseada em personagens reais. O que o interessou especificamente na história de Euclides da Cunha?
Gosto da ficção histórica e da possibilidade de transformar personagens reais em personagens de ópera. Foi assim com a Marquesa de Santos em Domitila e com Euclides da Cunha em Piedade. Naturalmente, isso impõe a mim um limite ético na condução do drama, pois o ponto de partida para a criação é a existência real e documentada. Interessa-me, entretanto, o que esses personagens têm de mais humano: suas personalidades, seus receios, contradições, sentimentos e emoções que marcam suas vidas e a dos outros. Evito a todo custo cair no que chamo de “ópera-documentário”, colocando em cena uma sequência de episódios que constroem uma narrativa biográfica sem a presença do elemento dramático. O cinema se presta melhor a isso. A ópera é um universo ficcional e anti-cartesiano por natureza, onde se canta ao invés de falar e o compositor consegue estender no tempo uma experiência emocional que na vida real pode ser fugidia.

A ópera recria personagens reais ficcionalmente, por meio da união entre texto e música. O que você tinha em mente ao trabalhar nessa recriação?
Euclides da Cunha e a chamada “Tragédia da Piedade” são temas irresistíveis para um compositor que, como eu, anda sempre à procura de bons enredos. São apenas três personagens em cena durante os 100 minutos de duração da ópera – Euclides, Anna e Dilermando. Ao escrever o libreto, tive o cuidado de não jogar sobre qualquer um deles a culpa pelos acontecimentos. Afinal, tinham se passado apenas 103 anos entre o fato e a estreia da ópera em 2012. Dias depois da primeira récita fui surpreendido por um e-mail de Dirce de Assis, filha do segundo casamento de Dilermando e autora do livro Meu Pai, agradecendo a forma cuidadosa com que tratei os personagens, todos vítimas de uma circunstância infeliz. Fiquei muito satisfeito!

Você poderia falar um pouco sobre a escolha do violão como instrumento a pontuar e acompanhar essa história?
O violão na ópera não é um novidade. O repertório tem árias e canções com acompanhamento de bandolim ou violão, como “Deh viene alla finestra”, do Don Giovanni de Mozart e “Se il mio nome saper voi bramate”, no Barbeiro de Sevilha de Rossini. Piedade é uma ópera eminentemente brasileira e não poderia faltar esse instrumento tão marcante para nossa música e para minha própria trajetória como compositor. Por isso, a última cena começa com Dilermando, violão ao colo, cantando a canção que acabou de compor para Anna: “Quando a manhã me desperta falando de amor”. É uma ária seresteira cujo tema vai ser, logo em seguida, retomado pela orquestra para acompanhar as brincadeiras apaixonadas dos dois amantes. Depois de escrever a ária, decidi criar Prólogos para violão solo e utilizar poemas de Euclides da Cunha para abrir cada uma das quatro cenas (Piedade tem um ato). Eventualmente, os Quatro prólogos de Piedade tornaram-se peças independentes e hoje são tocados em concertos. Ao reescrever a orquestração para a produção do Teatro Colón de Buenos Aires em 2017, ampliei ainda mais a participação do violão, incluindo-o no conjunto de câmara que acompanha toda a obra.


> Leia na edição de julho: "Tragédia à brasileira", por João Luiz Sampaio.

> Veja mais no Roteiro Musical.