Decisão do compositor aprofunda crise institucional após mudanças promovidas por Donald Trump
O compositor norte-americano Philip Glass, 88 anos, anunciou a retirada da estreia mundial de sua Sinfonia nº 15, “Lincoln”, que seria apresentada em junho no John F. Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington. A obra havia sido encomendada pela National Symphony Orchestra (NSO) e marcaria um dos eventos de destaque da temporada da instituição.
Em sua página no Facebook, Glass afirmou que a mensagem da sinfonia – inspirada no discurso de Abraham Lincoln no Lyceum, de 1838 – é incompatível com o momento atual da instituição. “A Sinfonia nº 15 é um retrato de Abraham Lincoln, e os valores do Kennedy Center hoje estão em conflito direto com a mensagem da obra”, escreveu o compositor. Glass recebeu o Kennedy Center Honors em 2018 e é um dos nomes mais consagrados da música contemporânea norte-americana.
A decisão ocorre em meio a um período de forte instabilidade no Kennedy Center, desencadeado por mudanças administrativas promovidas por Donald Trump desde que retomou a presidência dos EUA. Entre elas, a reformulação do conselho diretor e a polêmica alteração do nome da instituição para “Trump-Kennedy Center”. As medidas provocaram forte reação entre artistas e parte do público, que veem nas ações uma politização do centro.
O caso de Glass soma-se a uma série de cancelamentos de artistas de grande projeção. Nomes como Renée Fleming, Béla Fleck e Stephen Schwartz desistiram de se apresentar no local, enquanto a Washington National Opera, residente no Kennedy Center desde 1971, decidiu transferir suas produções para outros espaços.
A direção do Kennedy Center reagiu criticamente à decisão de Glass. Em declaração divulgada pelo site Violin Channel, a vice-presidente de relações públicas da instituição, Roma Daravi, afirmou que “não há lugar para política nas artes” e que boicotes motivados por posições políticas seriam um erro. Segundo ela, a instituição não cancelou nenhum espetáculo por iniciativa própria.
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