Volume 13

por Redação CONCERTO 01/11/2022

Vol 13

CLAUDIO SANTORO
Sinfonias nº 11 e nº 12 – Concerto grosso – Três fragmentos sobre Bach
Orquestra Filarmônica de Goiás
Neil Thomson
– regente

O nome do compositor Claudio Santoro aos poucos ganha sua devida importância na cena musical internacional. E, se suas sinfonias começam a ser compreendidas como um ponto de referência na música do século passado, isso tem muito a ver com a gravação que o maestro Neil Thomson e a Filarmônica de Goiás vêm realizando das obras. O volume anterior trouxe as sinfonias nº 5 e nº 7, e, agora, é lançado o disco com as nº 11 e nº 12, ambas gravadas pela primeira vez na história. As duas peças são dos anos 1980. A primeira é uma sinfonia relativamente curta, mas de enormes intensidade e força dramática. Já a nº 12 tem como destaque o modo como o compositor coloca músicos da orquestra em diálogo: a partitura nasceu de fantasias escritas pelo compositor para diferentes instrumentos. Fecham o disco outras duas obras, também da última década de vida de Santoro – Concerto grosso e Três fragmentos sobre Bach – e marcadas por um tom muitas vezes sombrio, em especial no concerto, que faz uso de práticas composicionais encampadas anteriormente por Santoro, como o uso de clusters. Parte da coleção A Música do Brasil, do selo Naxos, os discos colocam à disposição uma obra que é fundamental conhecermos, também pela interpretação de músicos cujo envolvimento com essa música é cada vez mais impressionante.

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[Reprodução]
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Texto do encarte do CD

Claudio Santoro (1919–1989)
Sinfonias nº 11 e nº 12 • Concerto Grosso • Três Fragmentos sobre BACH

Depois de quase uma década na Alemanha, onde atuou como professor titular de regência na Staatliche Hochschule für Musik Heidelberg-Mannheim, Santoro retornou ao Brasil em 1978, a convite do então Secretário de Educação e Cultura do Distrito Federal, Wladimir Murtinho, com a incumbência de estruturar a orquestra sinfônica do Teatro Nacional de Brasília, cujas obras encontravam-se em fase de conclusão. A orquestra foi fundada no ano seguinte, e Santoro tornou-se seu primeiro regente titular. Paralelamente, Santoro retomou suas atividades como professor de composição e regência na Universidade de Brasília. A orquestra e as atividades didáticas seriam dois elementos centrais na sua vida pelos dez anos seguintes.

A última década de vida do compositor foi extremamente prolífica, tendo visto o aparecimento de seis sinfonias, uma ópera, três grandes obras sinfônicocorais e um volume considerável de música de câmara. Após duas décadas de radical experimentação de linguagens, transitando entre o serialismo, a aleatoriedade e mesmo a música eletroacústica, Santoro adota uma escrita mais tradicional nos seus últimos anos, com uma linguagem eclética e muito pessoal que faz uma espécie de síntese artística de suas experiências anteriores.

O Concerto Grosso para quarteto de cordas e orquestra de cordas foi uma das suas primeiras obras dessa última fase no Brasil, composto em 1980 por encomenda do violoncelista Aldo Parisot (para quem Santoro já havia escrito seu concerto para violoncelo, quase vinte anos antes), para um curso internacional de música que Parisot organizava na Paraíba. A obra seria estreada apenas em 1982, no Rio de Janeiro, pelo próprio autor à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira. Embora mais tradicional na sua estrutura e concepção, a obra ainda guarda reminiscências das fases anteriores do compositor, como as construções de clusters e o uso de elementos aleatórios.

O concerto se abre com a apresentação de uma textura que permeará todo o primeiro movimento: linhas melódicas construídas pelos ataques sucessivos de várias vozes, que sustentam as respectivas notas e criam clusters em constante movimento. O quarteto faz sua entrada seguindo o mesmo procedimento, que se alterna com uníssonos sobre uma base de movimento aleatório rápido da orquestra. Solistas e orquestra se alternam em fragmentos em uníssono, as texturas fechadas da orquestra reaparecem no clímax do movimento. O segundo movimento apresenta um tema lírico pelos quatro solistas do quarteto, em entradas sucessivas. Um curto episódio central mais agitado retoma brevemente as texturas fechadas do primeiro movimento, antes de voltar ao material inicial. O terceiro movimento é enérgico e fortemente ritmado. Os elementos aleatórios reaparecem na orquestra na seção central, antes de um fecho vigoroso.

Santoro foi afastado da direção da orquestra no final de 1981 por desentendimentos com os órgãos locais de cultura, sem conseguir impor o nível de profissionalismo e qualidade que considerava necessário para a orquestra. Livre das funções de regente, dedica-se intensamente à composição pelos três anos seguintes, tendo sido esse o seu período mais fértil em toda a década. (Santoro reassumiria a posição de regente titular e diretor artístico do Teatro Nacional em 1985.)

A Sinfonia nº 11, composta em 1984, foi estreada em 1987, na Bienal de Música Brasileira Contemporânea, pela Orquestra Sinfônica Brasileira sob a regência de Roberto Duarte. Apesar de ser relativamente curta, sobretudo em comparação com a monumental Décima, é uma das sinfonias mais densas e dramáticas do ciclo. O Andante inicial abre-se com um longo solo a descoberto do oboé, ao qual se juntam gradualmente outros sopros e, finalmente, as cordas, num ambiente de desolação. O Allegro que se encadeia contrasta com a introdução do movimento por seu caráter enérgico, para o que contribuem o uso de grandes uníssonos velozes das cordas e das madeiras e as intervenções cortantes dos metais. O discurso dessa seção é predominantemente linear, e a tensão constante deriva das linhas angulares e da intensidade da orquestração. Um solo de violino que retoma a atmosfera do Andante inicial interrompe brevemente o movimento, e retorna ao final para concluir o movimento da mesma forma desolada.

O segundo movimento é um curto scherzo, muito vivo e de escrita altamente virtuosística, que impõe desafios consideráveis aos sopros, sobretudo aos metais. O envolvimento de toda a orquestra contrasta fortemente com o discurso linear do primeiro movimento, cuja ambientação se faz ouvir brevemente na seção central, com as cordas em uníssono.

O final é a explosão do conflito dos movimentos anteriores. Todos os elementos apresentados até então – a introdução cromática e desolada, os uníssonos velozes ou densos das cordas, as linhas angulares, o ritmo obstinado da percussão, as chamadas rápidas dos metais – se superpõem e entram em confronto até o final, dramático, em quádruplo fortíssimo, sobre uma pesada pulsação dos tímpanos, enquanto os temas do movimento se ouvem aumentados nos metais e nas cordas até o súbito desaparecimento da orquestra. A tragédia do final pode evocar imediatamente o início da primeira sinfonia de Brahms – um dos compositores preferidos de Santoro –, e não será por acaso: no manuscrito, após o último compasso, lê-se "Na casa de Brahms, 12-6-84, Baden-Baden, com angústia e saudade...".

Angústia é também o sentimento predominante nos "Três Fragmentos sobre BACH", compostos em 1985 (ano do 300º aniversário de Bach) por encomenda de Gerald Kegelmann, colega de Santoro em Mannheim. A obra foi escrita para a orquestra jovem local, mas com uma densidade e a elaboração incomum para obras do gênero. Santoro manipula o motivo B-A-C-H (si bemol, lá, dó, si natural) ao longo de toda a peça não apenas como motivo melódico direto, mas aplicando princípios de técnica serial, com transposições, inversões, retrogradações e mesmo construção de entidades harmônicas a partir do motivo e de suas variações.

Em 1983, Santoro foi convidado a escrever as peças de confronto para o II Concurso Sul América Jovens Concertistas Brasileiros, no Rio de Janeiro. Dessa encomenda nasceu a série das quinze Fantasias Sul América para instrumentos solo. (O nome não é uma referência ao continente, mas à companhia de seguros que patrocinava o concurso.) Santoro compôs também um acompanhamento orquestral opcional para cada fantasia, provavelmente com a intenção de que os finalistas ou vencedores do concurso pudessem apresentar-se dessa forma. As fantasias foram compostas entre março e abril de 1983, e, em maio do mesmo ano, Santoro terminava a "Fantasia Concertante", que era essencialmente uma sugestão de combinação dos vários números solistas com orquestra, com compassos adicionais de transição para permitir a continuidade do discurso.

Essa obra, nunca executada como planejada pelo autor, acabou tornando-se o embrião da Sinfonia nº 12, concluída em 1987, com o subtítulo original de "sinfonia concertante para oito instrumentos e orquestra" – o nono solista, o trombone, seria incluído posteriormente. Aproveitando-se do material compartilhado entre algumas das fantasias (os números para cordas são todos adaptações do mesmo material, assim como são as fantasias para flauta e clarineta), Santoro usa as peças de confronto como material temático, ampliando também a orquestração e mesmo o papel da orquestra na obra. O primeiro movimento abre-se com os solos de violino e violoncelo, primeiro conjuntamente, depois alternando-se nas cadências e no tratamento do material. O procedimento se repete na seção seguinte, confiada ao duo de flauta e clarineta. A reexposição do primeiro tema é feita pela viola, que conclui o movimento com brilho.

Segue-se um curto scherzo, vivo e algo marcial, cujo único solista é o trompete. O terceiro movimento abre-se com o solo do oboé, que, após um início jocoso, torna-se o momento mais lírico da sinfonia, com acompanhamento discreto da orquestra. Uma cadência introduz o solo da trompa, que dá início à segunda parte do movimento. O trombone, último solista, retoma o material inicial da trompa, mas com desenvolvimento mais assertivo e vibrante.

Santoro fez ajustes finais na sinfonia na sua última estada na Casa de Brahms, no inverno de 1988/89, e nunca chegou a ouvi-la. A obra seria estreada em 2019, nas comemorações do centenário de nascimento do compositor, pela Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo, sob a regência de Catherine Larsen-Maguire.

Gustavo de Sá

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