Céu e inferno em flagrantes da vida musical de cada dia

por João Marcos Coelho 25/09/2008

INVEJA POSITIVA - Sempre invejei a determinação do maestro Flavio Florence. Ele não só pôs de pé a Orquestra de Santo André vinte anos atrás - uma das sinfônicas regionais brasileiras mais respeitáveis - como conseguiu até um Steinway de concerto para a região, em importante campanha pública dez anos atrás.
Com um orçamento anual que raramente ultrapassava a casa de R$ 1 milhão, ele de fato operou milagres. Montou óperas (um "Don Pasquale" memorável) e enfrentou com competência as grandes obras sinfônicas e concertantes do repertório, com ousadias inesperadas para uma orquestra do Grande ABC.
Por aqui, temos o péssimo hábito de só elogiar as pessoas depois que elas morrem. Infelizmente, é assim também com Florence.

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É PRECISO OUVIR KAGEL - Gilberto Mendes jura que nunca ouviu nada do compositor argentino-alemão Mauricio Kagel, também morto semana passada. Mas dei uma repassada em suas obras e fiquei surpreso com duas constatações: 1) como são afins as plataformas estéticas de Kagel e Mendes, ambos satiristas, plenos de humor. Com uma diferença fundamental: a ironia de Gilberto Mendes é suave embora aguda; a de Kagel pende para o grotesco; 2) como é bom Mauricio Kagel. Ele precisa ser mais ouvido por aqui. No 43º Festival Música Nova, ainda em curso, não há nenhuma obra dele programada - e, que me recorde, provavelmente não se toca nada dele em São Paulo desde a virada dos anos 60/70, segundo um amigo fanático por música nova, que me assegura ter assistido a Kagel no auditório do Masp.

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CRÍTICO BOM É CRÍTICO APOSENTADO - Há semanas o sensato e muito competente Lauro Machado Coelho foi malhado em prosa e verso na internet porque disse algo que acontece quase sempre nas salas de concerto brasileiras: as sonoridades de nossas orquestras cobrem injustificada e grosseiramente solistas instrumentais e cantores. Aconteceu com a Osesp há pouco; aconteceu com a Orquestra Sinfônica Brasileira em Campos do Jordão, em julho passado, no "Don Quixote", onde o público queria mas não conseguia ouvir o violoncelo de Antonio Meneses.

Vida de crítico é mesmo perigosa. Ainda bem que Lauro passou batido. O mesmo, no entanto, não aconteceu com o crítico do jornal "Plain Dealer" de Cleveland. Donald Rosenberg foi rebaixado após mais uma crítica negativa a um concerto da Sinfônica de Cleveland sob a batuta do alemão Franz Welser-Möst. Segundo matéria do jornal The New York Times de hoje, quinta-feira (acesse (http://www.nytimes.com/2008/09/25/arts/music/25crit.html?_r=1&th&emc=th&oref=slogin), ele permanece no jornal. Só não pode é cobrir a orquestra, que renovou o contrato com Welser-Möst até 2018. Tem graça isso? Detalhe: um diretor do jornal também integra o conselho da orquestra. O enredo deste cruel pagode é o seguinte: quando o músico não concorda com a crítica, desqualifica o crítico. Nem lhe passa pela cabeça olhar para o seu umbigo e exercer um mínimo de autocrítica. Já fiz música de câmara com músicos que, após uma crítica negativa, escreveram ao jornal dizendo que eu era um analfabeto musicalmente. Pode?

E pra não dizerem que só falo de coisas miúdas, recorro a Brahms, o caso-limite, no qual se espelham músicos do planeta até hoje. Esculhambou Eduard Hanslick, da "Neue Freie Presse", o jornalão de Viena no século 19, por causa de uma crítica desfarovável. Chamou-o de imbecil e analfabeto musical. Apresentado ao autor de "O Belo Musical", tornaram-se amigos, e Hanslick foi o maior defensor do autor do "Réquiem Alemão" na briga com Wagner. Rapidamente, Brahms passou a considerá-lo o maior crítico musical de seu tempo. Estranha ética, senhor Johannes.

Como dizia sabiamente Mané Garrincha (foto acima) de seus infelizes marcadores: são todos Joões. Ou melhor, Johannes.