Concertgebouw nas nuvens

por Nelson Rubens Kunze 22/06/2013

Estava eu tranquilo em meus afazeres cotidianos, quando recebi o inesperado convite: a KLM, companhia aérea copatrocinadora da turnê da Orquestra Real do Concertgebouw ao Brasil, me convidava para uma “press trip” para Amsterdã. O programa contemplava uma “imersão cultural e musical holandesa” e o acompanhamento da Orquestra do Concertgebouw em seu voo de Amsterdã a São Paulo, no qual grupos de câmara se apresentariam, em pleno voo, para os passageiros. A decisão não foi difícil, e menos de uma semana depois estávamos – eu e outros quatro colegas jornalistas – embarcando no Aeroporto de Guarulhos.

 

2013 é um ano especial para Amsterdã. Depois de ter tido os seus históricos canais marítimos, construídos no século XVII, enquadrados na lista de patrimônio mundial da Unesco, a cidade finalmente pode festejar a reabertura de seus dois principais museus, o Van Gogh e o espetacular Rijksmuseum, este após uma reforma de uma década de seu histórico prédio de 1885.

Mas a comemoração que mais anima os melômanos em 2013 é a dos 125 anos do Concertgebouw, a famosa casa da orquestra considerada uma das melhores do mundo (em 2008, uma enquete da revista inglesa Gramophone com destacados críticos do mundo inteiro colocou a Royal Concertgebouw Orchestra simplesmente como “best orchestra in the world”). O edifício tem reputação por sua acústica especial, que é imbatível por conta do realce que dá à sonoridade orquestral – não por acaso, é a paleta de cores do som da orquestra do Concertgebouw que a distingue, e que deve ter sido determinante para os críticos a elegerem campeã.

Inaugurado em 1888, o Concertgebouw (que em tradução livre significa “prédio de concertos”) tem formato de “caixa de sapato” e abriga perto de 2 mil ouvintes. Na década de 1980, o prédio passou por uma grande reforma e modernização, ganhou um anexo e um amplo subsolo, e pode agora oferecer à orquestra as comodidades e tecnologias contemporâneas.

O Concertgebouw, sede da Royal Concertgebouw Orchestra [Foto: CONCERTO]

Pude confirmar a excelência da sala e da orquestra – e atestar a escolha dos críticos da Gramophone – no último concerto da Concertgebouw antes de seu embarque para o Brasil. Na quarta-feira, dia 19 de junho, sob regência de seu diretor Mariss Jansons, a orquestra tocou em sua famosa sala algumas das obras que poderemos ouvir também nos próximos dias aqui no Brasil: de George Enescu a Rapsódio Romena nº 1, de Rachmaninov as Variações Paganini (com Denis Matsuev ao piano), de Prokofiev a Suíte de Romeu e Julieta, e por fim O pássaro de fogo de Stravinsky.

Mariss Jansons e orquestra são aplaudidos após apresentação de O pássaro de foto [Foto: CONCERTO]

Mas estávamos curiosos com o voo Amsterdã-São Paulo e com a música no avião. A intenção da KLM era fazer uma transmissão (streaming) ao vivo de músicos da orquestra se apresentando dentro do avião, cruzando o Oceano Atlântico. Conforme nos explicou o especialista Peter Verheijde, a ação encerra um grande desafio tecnológico, que é o de enviar o sinal de dentro da aeronave fechada, que se desloca a uma velocidade de 900 km/h, a uma altura de quase 10 mil metros. Já é relativamente comum, nos Estados Unidos, a conexão wifi em voos sobre o continente, nos quais o sinal pode ser obtido e monitorado a partir da terra. Já em voos intercontinentais, para estabelecer a conexão wifi, o sinal tem que ser captado de cima, diretamente do satélite, por meio de uma grande antena instalada na parte superior externa da aeronave. A KLM desenvolve o sistema em parceira com a Panasonic.

Se o serviço não é exclusividade da KLM, certamente a ideia do streaming ao vivo de Mozart e Beethoven de dentro de um avião cruzando o Oceano Atlântico é pioneira e bastante inusitada [clique aqui para ver]. De casaca, trios e duos se revezaram em pequenas apresentações em diversos espaços da aeronave. Sem muito sucesso, os exímios músicos se esforçaram bastante para superar o ruído das turbinas (a anedota recorrente era de que o piloto deveria desligar as turbinas para que se pudesse ouvir melhor os violinos e violoncelos – nós brasileiros a bordo sugerimos que deixassem essa parte da experiência para quando do retorno da orquestra para Amsterdã...).

Mozart e Beethoven a bordo [Foto: CONCERTO]

Quanto à tecnologia, não sei se a experiência do streaming funcionou como Peter Verheijde imaginou, mas eu pessoalmente consegui passar e receber alguns e-mails em minha primeira experiência wifi a bordo de um avião a 10 mil metros de altura sobre o Oceano Atlântico. Já quanto à orquestra, não tenho dúvidas: pode ter certeza de que é bem melhor ouvi-la no Concertgebouw – ou no Parque do Ibirapuera (amanhã, 23/06, às 11 horas), ou na Sala São Paulo (dias 24 e 25/06) ou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (dia 26). Não perca!

[Nelson Rubens Kunze viajou a Amsterdã e acompanhou a viagem da Orquestra do Concertgebouw para São Paulo a convite da KLM.]