Marcos Salles, uma vida

por Camila Frésca 22/09/2010

Acaba de ser lançado o livro Marcos Salles, uma vida (Editora Thesaurus), que traz informações preciosas sobre o violinista, professor e compositor Marcos Raggio de Salles (1885-1865). A iniciativa é resultado de anos de pesquisa do casal de musicólogos Marena e Vicente Salles. Vicente é, como ele mesmo se define, antropólogo, historiador e folclorista, além de um profundo conhecedor da música do Pará, estado em que nasceu. Marena é violinista, grande pesquisadora da história do instrumento no Brasil e também filha de Marcos Salles.

Ao longo de décadas, Marena vem recolhendo e organizando, com a ajuda de Vicente, material relativo à vida e à obra de seu pai. Além do acervo familiar, de onde proveio a maior parte das informações, ela garimpou partituras de obras que desconhecia em arquivos públicos e outros acervos. A junção e análise de todo esse material deu origem ao livro, um compêndio bastante completo sobre a trajetória desse músico, que foi pioneiro na escrita para violino solo (ou desacompanhado) no Brasil.

De família paraense e nascido em Salvador, Salles começou a estudar violino aos 13 anos de idade e aperfeiçoou-se na Real Academia de Bolonha, na Itália. A partir de 1911 passa a viver no Rio de Janeiro, desempenhando um importante papel no meio musical. Fundou ao lado de Lorenzo Fernandez o Conservatório Brasileiro de Música, e como professor orientou diversos jovens talentos. Seu interesse pelo ensino fez com que criasse vários métodos de iniciação musical para o violino, bem como inventou a Manu Pauta, para o ensino de música e canto, na qual os dedos da mão (e os espaços entre eles) eram a própria pauta musical. Paralelamente, escreveu cerca de 90 obras para violino solo ou acompanhado de piano; violão, canto, coro e orquestra. Mais para o final da vida, interessou-se pela escultura e obteve diversos prêmios na área. Seguiu ensinando e compondo até morrer, em 6 de setembro de 1965. (Em artigo anterior publicado nesta mesma seção, tratei de aspectos biográficos e musicais da obra de Salles. Aqueles que se interessarem pelo assunto podem acessar o texto e ouvir uma interpretação do próprio ao violino, em registro de 1942, clicando aqui.)

Além de uma detalhada notícia biográfica acompanhada por fotos, o livro de Marena e Vicente mostra a amizade de Marcos Salles com Flausino Vale, explica a Manu Pauta e sua repercussão, bem como discute o caráter geral de sua obra musical – Salles escreveu preferencialmente para o violino, com destaque para curiosas obras descritivas de lendas amazônicas. Outra parte do volume é dedicada a textos do próprio Marcos Salles, que escreveu contos, poemas, textos memorialísticos e sobre a didática do violino. Um dos conselhos que dá aos violinistas, por exemplo, é o de que a prática do violão traz enormes benefícios à técnica de seu instrumento: “Há muito venho observando a influencia recíproca da técnica do violão sobre a técnica do violino (...) Um dos fatos que mais me obrigou a estudar esta questão foi constatar que Paganini teria sido também grande violonista (...) Eu não quero dizer com isto que com o violão se aprenda a tocar violino, mas é incontestável que o violão educa muito mais a mão esquerda e um bom violinista poderá sustentar a sua técnica de mão esquerda durante muito tempo com o violão.”

Entre os diversos anexos do livro, imagens do músico retratado por outros artistas, críticas de concertos que deu, algumas partituras publicadas, seu catálogo de obras e sua discografia. Para completar, temos um CD com diversas gravações do violinista interpretando obras próprias ou de outros compositores, e que se encerra com a interpretação de duas de suas obras por seus netos: Reminiscência, com o violoncelista Marcelo Salles, e A lenda da lua, com Mariana Salles (violino) e Lúcia Barrenechea (piano).

Assim, Marcos Salles, uma vida é um registro rico e diversificado da atuação e legado deste artista e, como consequência, uma importante fonte de informações tanto sobre a vida musical quanto sobre a música produzida no Brasil na primeira metade do século XX – e, mais especificamente, mais uma contribuição que nos ajuda a recuperar a tão pouca estudada tradição violinística do país.