O exemplo de Eduardo Monteiro

Tocar e gravar o repertório brasileiro de concerto é bom, mas, evidentemente, não basta para a sua divulgação. Essa história de que toda iniciativa é válida tem que ser vista com muito cuidado – eu me lembro de discos ouvidos na juventude que, de tão precários, só faziam me afastar deste repertório.

O problema é que muitas vezes nossa música erudita acabou ficando na mão de músicos que não tinham condições técnicas de executá-la, e se encaminharam para esse lado simplesmente porque nele encontravam menos competição do que nos grandes standards do repertório. Ou, então, de intérpretes até bem dotados tecnicamente, mas que a executavam sem convicção ou estudo – só para "cumprir tabela", fazer uma média ou amealhar patrocínio. À exceção de Villa-Lobos, a oferta de discos de compositores brasileiros era até representativa em termos quantitativos, mas minguada no aspecto qualitativo.

Felizmente, o quadro vem mudando – e em diversos campos do repertório. A Osesp, aqui como em outras áreas, dá o exemplo mais evidente, com discos antológicos de autores como Guarnieri, Mignone e Santoro. No repertório colonial, Luís Otávio Santos, em Juiz de Fora, vem aplicando com êxito as pesquisas interpretativas da escola de música antiga historicamente informada aos nossos compositores. E, no piano, há Eduardo Monteiro.
Monteiro tem capacidade técnica para decifrar o que haja de mais complicado nas partituras para seu instrumento. Beethoven, Debussy, Liszt: o pianista confere aos mestres sagrados do repertório leituras iluminadoras e interessantes, que sempre faz de seus concertos e recitais ocasiões de grande interesse.

O mais legal é que, quando aborda o repertório nacional, Monteiro o faz com o mesmo nível de entrega, perfeccionismo e respeito com que interpreta os compositores estrangeiros. Caso do excepcional CD Piano Music of Brazil, que traz sete distintos autores brasileiros, coroado por uma leitura incandescente das Cartas Celestes nº 1, de Almeida Prado (que ele tem tocado de cor em seus recitais, com um virtuosismo assombroso).

É o caso também da recente (28 de setembro) performance do Quinteto op. 18, de Henrique Oswald. Monteiro levou à Sala São Paulo uma interpretação idiomática e apaixonada da música de Oswald, mostrando que há muito a ser ouvido e descoberto nesse compositor tão injustamente negligenciado. Resta esperar que a brilhante geração de alunos cujo talento ele tem moldado não se limite a escutar apenas seus conselhos técnicos, mas que também o tome como exemplo na hora de valorizar esse nicho tão rico e ainda inexplorado da música de concerto do Brasil.

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