Ótimo concerto abre temporada comemorativa do Quarteto de Cordas da Cidade

por Nelson Rubens Kunze 07/04/2015

O Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, grupo pertencente ao Theatro Municipal, está comemorando 80 anos. Um conjunto de câmara de música clássica completar esta provecta idade não é algo trivial em nenhum lugar deste nosso mundo, o que dizer então aqui em nosso país. E certamente a vida do quarteto não deve ter sido fácil nem gloriosa em toda sua trajetória.

 

O grupo foi criado por Mário de Andrade (1893-1945), que em 1935 acabara de se tornar diretor do recém-criado Departamento de Cultura de São Paulo. Inicialmente, o conjunto se chamava Quarteto Haydn, depois Quarteto Municipal, até que, em 1981, ganhou a denominação atual. Sua primeira formação contou com os violinistas Anselmo Zlatopolsky e Ernesto Trepiccione, o violista Amadeu Barbi e o violoncelista Calixto Corazza. Desde 2002 o quarteto é formado pelos violinistas Betina Stegmann e Nelson Rios, o violista Marcelo Jaffé e o violoncelista Robert Suetholz.


Nelson Rios, Betina Stegmann, Marcelo Jaffé e Robert Suetholz [foto: Gabriel Novaes/divulgação]

Foi muito bom e emocionante o concerto de abertura da temporada 2015 do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, comemorativa de seus 80 anos, quinta-feira passada (02/04), véspera da Sexta-Feira Santa, em que apresentou As sete últimas palavras de Cristo na cruz, de Joseph Haydn, com a participação do cravista Nicolau de Figueiredo e do narrador Francisco Campos. A obra foi escrita em 1787 para orquestra, mas o próprio Haydn realizou a versão para quarteto de cordas (e um arranjo para piano e, posteriormente, ainda a transformou em um oratório para solistas, coro e orquestra). A encomenda original foi feita por um cônego de Cádiz, na Espanha, que solicitou a Haydn sete trechos musicais de caráter reflexivo, para acompanhar as rezas feitas entre cada uma das prédicas sobre as sete últimas palavras proferidas por Jesus ao ser crucificado.

Na apresentação do Quarteto da Cidade, a música veio intercalada com a narração de um texto de autoria do escritor português José Saramago. A ideia original foi de Jordi Savall, que, em início dos anos 2000, havia proposto a ideia a Saramago, conhecido por sua postura crítica em relação ao clero. Como consta na página da Fundação Saramago, o escritor “dedicou-se a um árduo trabalho de pesquisa, já iniciado quando de O evangelho segundo Jesus Cristo. No final, ‘escreveu sobre cada uma delas [as palavras de Cristo na cruz], não para explicar a música, mas para acrescentar ao seu evangelho as páginas que faltavam’”. Em 2007, o selo catalão AliaVox lançou a gravação de As sete últimas palavras de Cristo de Haydn pela Orquestra Le Concert des Nations, sob a direção de Jordi Savall, acompanhadas desses textos de José Saramago e também de Raimon Panikkar.

Mas voltemos à apresentação na Sala do Conservatório. Comecemos por Nicolau de Figueiredo, este músico extraordinário, que criou um baixo contínuo para acompanhar o quarteto de Haydn. A irreverência da proposta talvez possa ser atenuada pelo fato de a obra já contar com tantas variantes, mas o fato é que funcionou muito bem. O diferencial talvez tenha sido a própria sensibilidade musical de Nicolau, cujas intervenções de grande inventividade se adequaram perfeitamente à escritura haydniana. A execução ganhou um novo caráter de “afeto”, reforçando uma ligação mais forte da obra com o próprio século XVIII.

Foi muito apropriada também a narração feita por Francisco Campos. Com tom baritonal, Campos deu voz eloquente à mensagem humana de Saramago.

Sustentando todo espetáculo, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo demonstrou grande coesão e entendimento musical em emocionante interpretação. Betina Stegmann, o primeiro violino, toca com linda sonoridade e compreensão estilística, e suas intervenções têm sempre esmerado acabamento. O violinista Nelson Rios, o violoncelista Robert Suetholz e, na outra ponta, o violista Marcelo Jaffé completam o quarteto que exibe um raro equilíbrio entre qualidade de execução e o prazer de tocar, potencializando a comunicação de modo exemplar.

Que bom que o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo possa comemorar seus 80 anos com uma série de assinaturas e com apresentações em um espaço apropriado – a Sala do Conservatório. Por sua história e pelo brilhantismo de sua atual formação, o grupo merece isso e muito mais.

Vida longa ao Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo!

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