Paul Lewis: vigor físico e intelectual

Há intérpretes que conhecem só um jeito de fazer música – e procuram o repertório que melhor se adapta a seu temperamento (ou transformam tudo que tocam no seu próprio fazer musical). Outros se adaptam a cada obra, condicionando sua sonoridade às exigências do compositor e da partitura. No recital solo que deu na Sala São Paulo na última terça-feira, 19 de abril, o pianista britânico Paul Lewis comprovou pertencer a essa estirpe de intérpretes camaleônicos.

 

Tome-se como exemplo a diferença que houve entre sua execução da Sonata em si maior D 575, de Franz Schubert (1797-1828), que abriu o concerto, e as Quatro Baladas Op. 10, de Brahms (1833-1897), que vieram em seguida. Como o próprio Lewis assinalou na entrevista que concedeu a João Luiz Sampaio na matéria de capa da Revista CONCERTO deste mês, trata-se de obras da juventude de ambos os compositores, que contavam praticamente com a mesma idade quando as escreveram. Mas as semelhanças param por aí. Porque, por mais tradicional e “conservadora” que a técnica pianística de Brahms possa parecer, seu jeito de atacar o teclado e sua pesquisa de sonoridade são absolutamente originais. Não espanta, assim, que a um Schubert que soou comparativamente austero e contido, o piano tenha parecido se “abrir” quando Lewis interpretou Brahms.

O pianista Paul Lewis [foto: divulgação / Josep Molina / Harmonia Mundi]

Pouco antes de escrever as Baladas, o compositor havia visitado Schumann, que o descreveu “brotando como Minerva, toda armada, da cabeça do filho de Cronos”. Lewis resgatou a energia do Brahms juvenil, com um entusiasmo que não deixou de lado, contudo, os aspectos mais refinados de sua poética – especialmente evidente no jogo de timbres da Balada nº 3, em que Piero Rattalino vê um anúncio do mundo de Mahler.

Depois do intervalo, vinha mais Brahms, só que, dessa vez, tardio: os Três Intermezzos Op. 117. Para peças do mesmo compositor, porém de safra distinta, Lewis empreendeu nova busca de sonoridades, brindando a Sala São Paulo com pérolas de lirismo e melancolia.

Para o final, ficou a Après une Lecture du Dante: Fantasia quasi Sonata, daquele que habitualmente é visto como o antípoda pianístico de Brahms: o extrovertido e exuberante Franz Liszt (1811-1886). Nessa hora, Lewis demonstrou ser possuidor de uma força física equivalente a seus poderes intelectuais, arrancando do piano as avassaladoras cascatas de sons sustentados requeridas pelo compositor, em demonstração de domínio técnico absoluto e virtuosismo transcendental. Afinal de contas, não adianta ter um ideal sonoro na cabeça se o corpo não é capaz de materializá-lo...

Nos recitais solo promovidos pela Osesp, a Sala São Paulo é reduzida: colocam-se cadeiras no palco, e apenas uma pequena parte dos lugares da plateia são colocados à venda. O resultado é a criação de uma atmosfera de maior intimidade entre artista e público.

Desse jeito, não houve como não reparar que, em determinadas passagens da obra de Liszt, ele cerrou os olhos, gemeu, até gritou: dito assim, poderia parecer um gestual vazio, histriônico e exibicionista. Só que não foi nada disso. Lewis não chamava a atenção para si, mas enfatizava cada intenção da música, que saiu como a soberana vencedora de sua apresentação. Mal posso esperar por sua volta à Sala São Paulo, em outubro, para interpretar, com a Osesp, os cinco concertos para piano e orquestra de Beethoven.

[Nota do editor: Paul Lewis também será solista da Osesp a partir de amanhã, dias 21, 22 e 23 de abril, quando interpretará o Concerto nº 12, K 414, de Mozart. A regência será de Marin Alsop.]