Sala Cecília Meireles 50 anos

por Nelson Rubens Kunze 03/12/2015

Fui ao Rio de Janeiro na terça-feira passada, dia 1º de dezembro, para a comemoração dos 50 anos da Sala Cecília Meireles. A casa, que foi reaberta no começo deste ano após uma profunda reforma, é seguramente um dos melhores espaços musicais de nosso país. A Sala Cecília Meireles está linda, moderna, bem acabada e – talvez o mais importante –, após um ano de sua reinauguração, sob direção do pianista Jean Louis Steuerman, pode-se orgulhar de uma consistente e regular programação de ótimos espetáculos.

 


Nelson Freire em seu recital em comemoração aos 50 anos da Sala Cecília Meireles [foto: divulgação]

Tudo isso já seria suficiente para participar da festa, mas havia uma razão ainda mais especial: um recital do pianista Nelson Freire, que há 50 anos, ainda jovem, havia feito o recital de inauguração. Não há palavras que façam jus ao brilhantismo desse artista excepcional. De suas mãos brota música de todas as cores, um arco-íris sonoro de que a gente não acredita que um piano seja capaz. Suas interpretações são de uma personalidade que chega a transcender a obra do compositor – e estamos falando de Mozart, Beethoven e Chopin –, de um rigor e cuidado tão elevados que soam naturais. Fraseados em perfeita sintonia com a malha harmônica e um superlativo equilíbrio de interpretação – a arte de Nelson Freire é isenta de artificialismos ou afetação. Claro, é possível questionar algumas de suas escolhas ao confrontá-las com leituras de outros grandes mestres do teclado – chama a atenção a articulação e energia rítmica de seu Mozart (Sonata nº 11, K 331) –, mas Nelson sempre oferece verdades, sua arte é inquestionável. Ainda que nenhum momento deste memorável recital tenha sido menos que extraordinário, a exigente e densa Sonata nº 32, op. 111 de Beethoven conseguiu se destacar: dinâmicas cuidadas, articulação precisa e uma profundidade de expressão da qual só poucos artistas são capazes, abriram janelas para uma nova e rica percepção dessa grande obra, a última sonata do compositor. Nelson Freire encerrou com a Sonata nº 3 de Chopin, em uma interpretação irretocável e plena de emoções.

Esse homem, que surge do fundo do palco, andando lentamente, com passos curtos e uma postura quase tímida, é, sem dúvida, uma das grandes glórias que o Brasil pode servir ao mundo. Qual melômano deslumbrado entrei na fila no foyer do teatro e peguei o autógrafo do meu xará: “ao Nelson, o abraço do Nelson”.

É, sou mesmo um sortudo por ter presenciado essa grande festa dos 50 anos da Sala Cecília Meireles. Que venham mais 50!

 


 

Por falar em Cidade Maravilhosa, música de alto nível e salas de música de câmara, fiquei devendo algumas linhas sobre a 4ª Semana Internacional de Música de Câmara do Rio de Janeiro, que, sob direção da pianista Simone Leitão, aconteceu em outubro passado no Teatro de Câmara da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. A programação reuniu destacados músicos e grupos brasileiros e estrangeiros, entre os quais o quarteto norte-americano Arianna, os pianistas Eduardo Monteiro e a russa Sofya Gulyak (medalha de ouro no concurso de Leeds 2009), o violinista Daniel Guedes e o grupo dinamarquês Ensemble MidtVest, além de masterclasses com Pinchas Zukerman e Amanda Forsyth. Assisti a um excelente recital do violoncelista pernambucano Leo Altino, do clarinetista Ovanir Buosi, do violinista norte-americano John McGrosso e da pianista Simone Leitão, com obras de Brahms, os trios op. 114 (clarinete) e op. 87 (violino).

Além da competência artística e da grande comunhão e integração dos músicos – no melhor espírito da verdadeira música de câmara –, o que me chamou a atenção foi a ótima acústica do Teatro de Câmara da Cidade das Artes, realmente especial. Se há poucos anos reclamávamos da precariedade dos equipamentos cariocas, hoje, com o Theatro Municipal reativado, a reinauguração da Sala Cecília Meireles e o complexo da Cidade das Artes, a Cidade Maravilhosa ficou ainda um pouco mais maravilhosa...

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