“Sátyra” orfeônica

por Leonardo Martinelli 24/05/2010

Apesar de, no Brasil, ainda não termos uma cena operística à altura da atividade musical de nossos grandes centros urbanos (mas sempre resta uma esperança), temos algumas “estruturas” que entram em ação em nossos minguados espetáculos líricos.

 

Uma dessas estruturas é constituída por um importante círculo de diretores de cena que se especializaram em montagens de óperas, algo que ocorre também em outros países. Desta forma, nada mais natural que artistas que se consagraram por sua atuação em outras áreas – tal como o teatro e o cinema –, venham soprar uma brisa renovadora em meio aos foyers e camarotes de nossas modestas casas de ópera.

Nos últimos anos, certas parcerias têm dado muito certo, tal como é o caso do diretor de teatro Felipe Hirsch, que faz um importante trabalho junto à sua companhia, a Sutil Cia. de Teatro, e que realizou uma aclamada encenação do Castelo do Barba Azul, de Béla Bartók, em uma produção original do Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Da mesma forma, foi muito importante a montagem de Dido e Enéas, de Henry Purcell, empreendida por Antônio Araújo, diretor da companhia Teatro da Vertigem, em uma memorável produção realizada, não num teatro, mas em plena Central de Produção Técnica do Teatro Municipal de São Paulo, bem ao gosto das montagens que o tornam um nome fundamental na dramaturgia brasileira.

Assim, o anúncio de uma nova montagem de Orfeu e Eurídice, de Christoph Gluck, sob a direção cênica de Rodolfo García Vázquez, levantou uma série de expectativas que, infelizmente, não se confirmaram. Dramaturgo e diretor da companhia de teatro Os Satyros, Vázquez é protagonista de peso na cena teatral paulistana e das atividades em torno dos espaços da Praça Roosevelt, inclusive abocanhando um prestigiado Prêmio Shell. Sua atuação no teatro é francamente marcada pela inventividade e ousadia. Seu Orfeu e Eurídice, sua primeira experiência na ópera, foi, contudo, marcado por clichês e, surpreendentemente, por uma total falta de ousadia.

Cena da ópera Orfeu e Eurídice [Foto: divulgação]

Colocando à parte as questões de limitações orçamentárias, que certamente devem ter permeado a montagem em questão, o que decepcionou não foi a ausência de um luxo carnavalesco, mas sim a ingenuidade das escolhas realizadas por Vázquez: um Inferno a la sauna da rua Augusta, um kitsch Campos Elíseos a la buffet infantil, e a redenção final, uma tediosa festa hippie. Tudo isso complementado por uma movimentação cênica escolar e bailados constrangedores. Reunidos, esses elementos proporcionaram uma montagem simplesmente “careta”, que em absoluto faz jus à reputação que precede o nome de Vázquez.

Já a parte musical – com a Orquestra Acadêmica de São Paulo e Coral da Cidade de São Paulo, regidos por Luciano Camargo – alternou entre infernos e paraísos, bem à moda orfeônica. Aqui, é muito importante lembrar que, há anos, Camargo vêm empreendendo heroicamente seu projeto musical, sem estrutura e patrocínios adequados, o que não o impediu de realizar trabalhos interessantes nos últimos tempos.

Dessa forma, se a orquestra não chega a ter uma excelência profissional, ela também não jogou contra o conjunto, diferentemente do imenso coro (que mal coube no palco), mal preparado (e, talvez, também cansado), com vozes sem impostação e desafinadas. Numa obra onde o coro atua como um verdadeiro protagonista, foi uma pena.

A salvação veio mesmo com as belas atuações das solistas. Denise de Freitas (Orfeu) proporcionou uma presença musical e cênica emocionante, e seu trabalho merece ainda mais aplausos diante da hostilidade musical com que teve que contracenar (experimente tentar cantar afinado com um coro que está sempre te “puxando pra baixo”). Se Lina Mendes (Eurídice) ainda não se destaca por sua atuação cênica, no entanto, já chama muito a atenção pelo belo timbre e projeção de sua voz, virtudes também compartilhadas por Solange Siquerolli (Amor).

Se no mito de Orfeu a redenção reside no Amor, na montagem satyrica (sic) a salvação veio mesmo de sua companheira celeste, a Música. Pois como diria Sartre, o Inferno são os outros.