Uma noite na ópera

por Leonardo Martinelli 19/06/2013

Como é de conhecimento de todos, o Brasil passa por um momento de grande mobilização popular no qual a cidade de São Paulo é um de seus epicentros. Na noite da última terça-feira (18 de junho) estava agendada a última récita da ópera The Rake’s Progress, de Stravinsky, no Theatro Municipal de São Paulo. No mesmo dia, no final da tarde, ocorria a poucos metros dali, mais precisamente na Praça da Sé, uma grande concentração de manifestantes. Como se mostrou padrão nessas recentes mobilizações, logo a grande massa passou a se deslocar, e desta vez ela partiu da Praça da Sé em direção ao Theatro Municipal, trajeto este que necessariamente coloca a prefeitura da capital no meio do caminho.

 

Atento à possibilidade de esbarrar em um grande congestionamento, fui de metrô: desci na estação São Bento, atravessei o Vale do Anhangabaú, peguei a Rua São Bento para em seguida virar à esquerda na Rua Conselheiro Crispiniano, que me levaria direto ao Municipal. Assim que cheguei, me deparei com uma alegre e pacífica multidão, que celebrava a plenos pulmões suas liberdades e o direito de se indignar em público, em conjunto. A escadaria do Municipal estava tomada. Um clima de serenidade pairava no ar junto com os helicópteros da PM e das emissoras de TV. Encontrei na multidão o amigo (e crítico e jornalista) João Luiz Sampaio. O clima era tão amistoso e seguro que pedimos a um estranho tirar uma foto nossa. Por precaução, as portas centrais do teatro não foram abertas.


Theatro Municipal de São Paulo no início da manifestação de 18/6 [foto: Leonardo Martinelli]

Faltando poucos minutos para começar a récita era evidente que, se por um lado, a manifestação havia angariado muitos seguidores, pelo outro afastara muitos que intencionavam ir à ópera naquela noite. Após poucos minutos de um atraso estratégico, ficou claro que a récita final teria uma audiência de câmara. Sobe o pano, e o mundo muda pela primeira vez naquela noite...

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Pessoalmente, penso que “controverso” seja uma ótima palavra para definir The Rake’s Progress, a ópera que Stravinsky escreveu já em solo norte-americano e perfeitamente imbuído da poética neoclássica que tanto decepciona os fãs da Sagração da primavera. Para eles, sua partitura soa estranhamente não-Stravinsky, e não raro ela é proscrita do cânone da música contemporânea. Pelo outro lado, seu perfume fora de moda, seu lirismo em stile antico tende a descer suavemente ouvido abaixo para as grandes audiências. Pior para os músicos, para quem resta a ingrata tarefa executar uma partitura difícil que soa como música fácil.

A temporada paulistana do The Rake’s Progress contou com a direção musical do maestro Jamil Maluf, que como de hábito, realizou um trabalho preciso, competente e musical sobre a obra. Nesta récita final, o elenco solista mostrou-se admiravelmente equilibrado. O tenor Chad Shelton (Tom Rakewell) domina com folga as artimanhas de sua parte vocal, e atuou com naturalidade e desenvoltura. Foi uma delícia ouvir a voz da soprano Rosana Lamosa (Anne Trulove) reverberar de forma fluída e despojada, ocupando com segurança o espaço acústico do teatro. O baixo Savio Sperandio (Nick Shadow) realizou um excelente trabalho dramático para caracterizar a vilania de sua personagem. O elenco se completou com atuações igualmente bonitas e competentes de Saulo Javan (pai de Anne), Adriana Clis (como a sensualíssima Mamãe Gansa), Silvia Tessuto (Baba, a Turca, nada sensual, mas é o que esperamos de uma mulher barbada), André Vidal e Marcelo Santos.


Cena da ópera The Rake's Progress [foto: divulgação/ João Caldas]

A sempre jovem Orquestra Experimental de Repertório nunca decepciona, e mesmo nesta difícil partitura saiu-se muito bem tanto em seu coletivo como nos pontuais momentos solistas (destaco aqui alguns solos de trompetes especialmente bonitos). Sob a direção do maestro Bruno Greco Facio, o Coral Paulistano realizou um trabalho musicalmente admirável, preciso, de surpreendente coesão tímbrica. Não bastasse isso, o coro soube também incorporar as diferentes personas atribuídas pelo libreto: desde uma animada turma em um bordel até um angustiante manicômio na cena final.

Ao longo da primeira parte do espetáculo (quando foram encenados os dois primeiros atos) foi possível ouvir, em diversos momentos, o som de helicópteros dando rasantes. A não ser que um percussionista estivesse tremendamente perdido na partitura, creio ter ouvido no mínimo três vezes sons graves, típicos de bombas de efeito moral.

Cai o pano, todos seguem o rumo natural das coisas, isto é, um café ou um salgado no saguão do Municipal. Foi então que o cenário mudou pela segunda vez naquela noite...

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Ao sair da sala de espetáculo nos deparamos com o saguão do Municipal em trevas. Era uma medida para não chamar atenção de quem está lá fora. A única luz era a das labaredas das barricadas que aquele momento ardiam na Rua Xavier de Toledo. Mas quem estava lá fora? Não era possível ver. Eram muitos, mas não tantos como antes do espetáculo. Parecia que eu havia saído de um portão dimensional e entrado em outro mundo. Mais ao fundo era possível ver as chamas que iluminavam a fachada da prefeitura, no outro lado do viaduto do chá. O restaurante do teatro estava aberto, mas mal comecei a tomar uma sopa e os funcionários do teatro nos instruíram a deixar o lugar. Entendi o porquê; trata-se de um dos pontos mais vulneráveis, de janelas despidas e acesso direto à rua. Fomos todos para o foyer. Lá uma funcionária informava, em voz alta, que apesar dos pesares, da pichação na fachada (informação que todos os presentes engoliram a seco), não havia perigo eminente e a récita iria continuar. Como diz o ditado, “o espetáculo não pode parar”, e todos os envolvidos na produção mostraram-se fieis a este princípio. Em sua grande maioria, o público diminuto também não arredou o pé.


Theatro Municipal de São Paulo na noite de 18/6 [foto: Leonardo Martinelli]

É difícil verbalizar o turbilhão que pode passar em nossas cabeças em um momento como esse. Por que estamos ali? Estamos correndo perigo? Por que não fomos embora? Por que não estamos lá fora? Por que estaríamos lá fora? No final das contas, arrisco algumas respostas: ficamos porque “ir até o fim” também é um tipo de comprometimento com uma causa maior; ficamos porque no entorno de violência e insegurança o teatro e a música nos protegia, nos abrigava.

Voltamos então ao mundo de Tom, Anne e Nick, na versão toda particular do diretor de cena Jorge Takla (que também assina a cenografia), que tomou o palco do teatro em colaboração com o trabalho de luz de Ney Bonfante, figurinos de Mira Haar e coreografia de Sabrina Mirabelli.

Takla sabe muito bem o que quer, e tudo aquilo que no início do espetáculo poderia ser mera sugestão, mostra-se elemento estruturador com o desenrolar da história. O cenário foi relativamente simples (não confundir com simplório) e eficiente, o que enfatizou o trabalho de movimentação de todos envolvidos no palco. Um dos elementos mais marcantes foi a insistência no figurino caipira para Tom, mesmo quando ele cai nas graças da fortuna. Mais do que um adereço, vejo como uma maneira de afirmar a perenidade da pequenez da personagem, não importa o tempo ou as circunstâncias, esteja ele pobre, rico ou louco.

Mas “louco” mesmo seria a terceira transformação de cenário que presenciaríamos ainda aquela noite...

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Com o cair definitivo do pano, fomos todos orientados a deixar o Municipal por suas portas laterais. Era um indicativo que algo “estranho” ocorrera. Ao ganhar a rua, não resisti e fui para a frente do teatro. Foi quando então constatei que sua fachada havia se tornado cenário de uma grotesca farsa, todo pichado, ou “vandalizado”, como eu mesmo cheguei a afirmar nas fotos que publiquei nas redes sociais.


Fachada do Theatro Municipal de São Paulo após manifestação de 18/6 [foto: Leonardo Martinelli]

Encontrei na escadaria, com olhar de tristeza, o diretor geral do Municipal paulistano, José Herencia. Ela tentava explicar a jornalistas o que tinha acontecido. Mas era uma situação de deixar a todos sem palavras. Eu apenas acenei e o cumprimentei, naquele silêncio típico dos velórios. Não havia palavra a ser dita. Ou conforme o jargão da música, “tacet”.

Vendo a fachada do Municipal toda transfigurada senti ainda mais o peso do heroísmo daqueles artistas e técnicos que, momentos antes, controlavam suas próprias ansiedades, medos e receios para fazer o espetáculo continuar: em certas circunstâncias continuar a fazer o nosso trabalho é a melhor maneira de lutarmos por um mundo melhor.

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