‘Auto da Compadecida’, ópera construída pela força do conjunto

por João Luiz Sampaio 07/11/2022

A Orquestra Ouro Preto fez no último final de semana a estreia da ópera Auto da Compadecida, de Tim Rescala, com duas apresentações no Teatro Alfa, em São Paulo. A obra é baseada na peça de mesmo nome de Ariano Suassuna, e o texto foi adaptado pelo próprio Rescala, ao lado do maestro Rodrigo Toffollo, diretor artístico do grupo. A montagem será também apresentada no Rio de Janeiro, nos dias 29 e 30 deste mês, e em Belo Horizonte, nos dias 9 e 10 de dezembro.

Auto da Compadecida é de 1955 e criou figuras que se tornaram marcantes na história do teatro brasileiro: João Grilo e Chicó, duas pobres almas sábias ao jogar com as desvirtudes dos demais personagens; o padeiro e sua mulher, avaros, ciosos de um frágil status social; o Padre e o Bispo, interesseiros, racistas, desonestos; o cangaceiro Severino. Todos, com exceção de Chicó, acabam mortos – são julgados por Jesus e o Encourado e defendidos por Nossa Senhora.

Em entrevistas sobre a obra, tanto Toffollo como Rescala falaram do objetivo de criar uma ópera buffa brasileira. O “brasileiro” vem do tema que inspira a obra, e das danças e ritmos nordestinos que Rescala retrabalha com habilidade ao longo de toda a partitura. E o diálogo com a tradição da comédia operística parece se traduzir acima de tudo na feição de Auto da Compadecida como uma ópera de conjunto.

São bonitos, líricos, tocantes momentos como a evocação de Maria por João Grilo; divertidas as passagens como o Maracatu do Pirarucu, cantado por Chicó; irônicos e saborosos os rompantes dramáticos da Mulher do Padeiro, assim como as intervenções do Padre e do Bispo. Da mesma forma, chama atenção a escrita vocal diferente dada a cada personagem, alterando entre o cômico, o trágico, a fala pontuada pela música, a narração. Mas, integrados ao discurso musical contínuo, todos esses elementos e ariosos são menos pontos de inflexão e mais pedaços de um todo que a música carrega de modo quase vertiginoso. Isso, no primeiro ato; pois, no segundo, no julgamento das almas, a música se transforma e, sem perder o tempo do teatro, ganha ares mais etéreos, em especial nas passagens da Compadecida.

Afinal, Auto da Compadecida é uma obra sobre um tecido social, seja ele o das relações de poder deflagradas, seja o da mistura entre a tradição religiosa e a cultura popular, tão marcante no texto de Suassuna. Nesse sentido, funciona também a montagem de Chico Pelúcio, hábil em manter o palco cheio quase o tempo todo, fazendo dos próprios solistas membros do coro – misturando, assim, indivíduo e coletivo. 

O maestro Rodrigo Toffollo comandou a Orquestra Ouro Preto sabendo manter o vigor, a energia e o senso teatral da música. E contou com um elenco afiado. Jabez Lima ofereceu uma leitura matizada de João Grilo, acompanhado do Chicó de Rafael Siano, do cômico ao trágico, interpretando também o Encourado. Fernando Portari, depois de uma sequência de personagens dramáticos, retornou com verve à comédia interpretando o Padre, secundado pelo divertido Bispo de Marcelo Coutinho. Carla Rizzi esteve muito bem como a Mulher do Padeiro. E Marília Vargas, doce, delicada, amorosa como a Compadecida. Maurício Tizumba destacou-se como Manuel, uma presença forte no palco, liderando um time de atores que teve também Glicério do Rosário, como o Palhaço e Severino, e Claudio Dias, como o Padeiro. 

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Elenco da ópera 'Auto da Compadecida' [Divulgação]
Elenco da ópera 'Auto da Compadecida' [Divulgação]

 

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