Pianista brasileiro radicado em Berlim, Allan Duarte Manhas grava disco que tem como destaque os prelúdios para violão de Villa-Lobos reinventados para o piano por José Vieira Brandão
É delicioso revisitar obras que estão entre as nossas preferidas. Principalmente quando soam novíssimas, recém-compostas, porque reinventadas em outro instrumento, que não o original para o qual foram criadas.
Pois foi esta a sensação que tive ao escutar os excelentes arranjos para piano – que eu não conhecia – dos famosos cinco prelúdios para violão de Villa-Lobos. Ele os compôs para Arminda, a “Mindinha”, sua segunda mulher, nos anos 40. Detalhe: o autor dos arranjos – prefiro chamá-los de reinvenções mesmo – é José Vieira Brandão (1911-2002), pianista, regente coral, compositor e amigo próximo do compositor. Sob orientação de Villa-Lobos, Brandão remodelou meticulosamente a linguagem harmônica, o fraseado e as texturas.
Eero Tarasti, num dos mais preciosos livros escritos sobre o compositor (Vida e Obra, publicado no Brasil pela editora Contracorrente, em 2021), diz que cada um deles é “uma joia rara” e acrescenta que “pertencem ao romantismo nacionalista de sua fase intermediária, no mesmo sentido que o Ciclo Brasileiro para piano”. Resumindo: o primeiro, e talvez o mais célebre, remete ao lirismo de... Chopin; o segundo emula o frenesi rítmico da capoeira; o terceiro é uma saudação a Bach; o quarto remete ao universo indígena; e o quinto é pura música urbana. Características que, nesta soberba recriação por Vieira Brandão, acrescentam pitadas de erudição em peças que originalmente possuem o perfume do improviso, tamanha sua fluência.
No mesmo álbum, lançado em 2025, outra descoberta, ao menos para mim. Não conhecia Allan Duarte Manhas. Pianista hoje radicado em Berlim, é há cinco anos coordenador do Departamento de Instrumentos de Teclas na Escola Comunal de Música de Giessen e há dois anos também Coordenador do Departamento de Estudos Pré-Universitários e de Talentos do Conservatório de Música Leo-Borchard em Berlim.
Allan nasceu em Ribeirão Preto. Estudou com o ótimo Fernando Corvisier na USP-Ribeirão Preto. Sua primeira parada na Europa foi em Kiev, na Ucrânia. Lá estudou na Academia Nacional Tchaikovsky. Em seguida, na Alemanha, estudou com o também ótimo pianista brasileiro Marco Antonio de Almeida, na Universidade Martinho Lutero em Halle-Saale.
American Preludes: 20th-century piano music of the Americas, seu primeiro álbum, foi gravado em 2024 e lançado pelo selo Da Vinci Classics nos primeiros meses de 2025. Além dos prelúdios do Villa, lá estão os Doze prelúdios americanos, do argentino Alberto Ginastera; os Preludios encadenados, do mexicano Manuel Ponce; e os Treze Prelúdios, da compositora canadense Jean Coulthard.
Destes, os mais interessantes são os Doze prelúdios americanos, de Ginastera, compostos em 1944, um ano depois que Villa concluiu seus cinco prelúdios. São praticamente aforismas musicais, o mais longo não chega a 2 minutos, alternando títulos como “Triste” e “Danza Criolla” a tributos a amigos compositores como Copland e o próprio Villa, com outros de natureza pedagógica\técnica, como “Para las octavas”.
Um pouco mais longos – mas não muito, só um chega aos 3 minutos – são os prelúdios da compositora canadense Jean Coulthard (1908-2000). Ela nasceu Em Vancouver, mas estudou em Londres com Ralph Waghan Williams e nos Estados Unidos. Ela os define como produtos de "lirismo brilhante e introspecção melancólica".
Talvez a contribuição mais original ao gênero prelúdio neste álbum seja do mexicano Manuel María Ponce (1882-1948). Ele comprimiu quatro prelúdios em 7 minutos, costurando-os numa só peça. A ginga “mexicana” só aparece no último prelúdio (os últimos 2 minutos dos 7’55 totais). Ponce andou por Cuba e fixou-se por oito anos em Paris, onde foi bastante influenciado pela música de Paul Dukas.
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