Com Faust e Volmer, a Osesp chega à excelência

Se os gestores e políticos do Brasil em geral, e de São Paulo em particular, abriram guerra de extermínio contra a música de concerto, não é por causa do nível artístico de nossos musicistas. Bastou comparecer a uma apresentação como a de Isabelle Faust com a Osesp, regida por Arvo Volmer, para constatar que o fazer musical por aqui pode atingir níveis elevadíssimos de excelência e qualidade.

É um privilégio desfrutar de uma instituição como a Osesp, que pode trazer ao Brasil, como artista em residência, uma estrela da magnitude da violinista alemã Isabelle Faust. Se ela “só” tivesse vindo para cá tocar o concerto de Brahms, como fez na semana passada, já seria um luxo. Porém, ainda teve, nesta semana, a integral das sonatas de Beethoven, ao lado do pianista Alexander Melnikov; e, em setembro, ela volta para interpretar o Concerto nº 1, de Szymanowski, sob regência de Penderecki, além de dar recital solo com a integral das sonatas de partitas de Bach.

Em 2014, Faust já havia conquistado a Sala São Paulo com sua leitura refinadíssima do Concerto de Beethoven, e esteve longe de decepcionar em sua volta à cidade. Escolher a cadência escrita por Busoni foi apenas uma das múltiplas surpresas com que ela nos brindou, e desconfio que o próprio Brahms teria ficado encantado com o viés classicizante de sua leitura da obra. Faust imprime, sim, vigor nas passagens de maior bravura da obra, mas sua leitura traz uma transparência e clareza na articulação que parece remeter diretamente à gloriosa tradição de Bach, Mozart e Beethoven da qual o autor de Um réquiem alemão era tributário. Sua sonoridade límpida e precisão cirúrgica estão a serviço não apenas de uma compreensão profunda da partitura, como de um bom gosto aparentemente infalível: na ourivesaria de cada frase, Faust parece tomar sempre as decisões corretas, o tempo todo. Uma clarividência que se estendeu ao bis: uma transcrição para violino e orquestra do entorpecedor Träume, dos Wesendonck-Lieder, de Wagner.

Dado, porém, o nível da apresentação do último sábado, dia 13, seria injusto louvar a Osesp apenas como instituição que convidou Faust a São Paulo. Já não é de hoje que alguns regentes convidados vêm nos revelando uma orquestra que mesmo os frequentadores mais assíduos da Sala São Paulo não suspeitam existir. Alguém ainda precisa estudar as afinidades entre as águas do Tietê e as do Báltico, pois muitos deles são provenientes justamente dos países que ficam na orla deste mar.

Como Arvo Volmer, da Estônia. Caso raro de regente que não é atacado, mas sim elogiado pelas costas pelos músicos com que trabalha, Volmer está se tornando “figurinha carimbada” na Osesp, e não por acaso.

O repertório que ele trouxe à primeira parte da apresentação esteve longe de ser óbvio, ou fácil para o público. Começou com a estimulante exploração de sonoridades de Les Poids des Vies non Vécues (O peso de vidas não vividas), de seu compatriota Erkki-Sven Tüur, 57, que Volmer estreou em Bruxelas, em 2015 – um memorial à I Guerra Mundial, música contemporânea recentíssima, que vale bastante a pena conhecer. E prosseguiu com aquela que talvez seja a obra orquestral mais elusiva de Sibelius – a Sinfonia nº 4.

Com um gestual elegante e preciso, Volmer parece transmitir segurança aos integrantes da Osesp, estimulando-os e permitindo-lhes render mesmo em um repertório pouco familiar. Vale destacar aqui não apenas os solos, mas sobretudo a coesão e solidez dos naipes. Minha memória pessoal tem que fazer muito esforço para se lembrar de uma outra ocasião em que as cordas da orquestra tenham soado de forma tão robusta, e com tamanha personalidade.

Em dias sombrios, em que meramente ir a um concerto é um subversivo ato de resistência, Volmer nos ajuda a lembrar de que a Osesp é o paradigma de excelência sinfônica do Brasil.