Leonardo Martinelli compõe notável trilha sonora para o filme ‘Limite’

por Nelson Rubens Kunze 31/10/2026

Ao construir um discurso orgânico que abarca toda a obra, o compositor constitui uma leitura musical criativa e coerente do universo poético concebido por Mário Peixoto

Gostei muito da estreia da nova trilha sonora para o filme Limite, composta por Leonardo Martinelli e apresentada na Estação Motiva Cultural na última quarta-feira, dia 28 de outubro. Foi uma experiência artística emocionante, com uma ótima performance do Percorso Ensemble conduzido por Ricardo Bologna.

Limite, de Mário Peixoto, é um longa-metragem mudo, de 1930, que se tornou um clássico do cinema brasileiro e é considerado por críticos e especialistas um dos mais importantes filmes brasileiros jamais realizados.

A sessão na Estação Motiva Cultural foi precedida por uma conversa muito boa e esclarecedora, que reuniu Carlos Augusto Calil, professor da ECA e diretor da Cinemateca Brasileira – e um dos maiores conhecedores da obra de Mário Peixoto –, e o compositor Leonardo Martinelli, com mediação da jornalista Renata Forato.

Calil fez uma breve análise do filme, destacando a sua importância não apenas do ponto de vista da estética na história do cinema da América Latina, mas também chamando a atenção para soluções técnicas que Peixoto implementou – em uma época em que não havia gruas ou mecanismos de estabilização das câmeras –, que influenciaram a produção cinematográfica internacional.

O professor também contou sobre o processo de restauração do filme, cuja única cópia teria se deteriorado por completo não fosse a atenção do então jovem estudante Plínio Sussekind Rocha. A restauração passou por diversas etapas até sua conclusão em 1978. Finalmente, nos anos 2000, em parceria com a Cinemateca Brasileira e com o patrocínio da World Cinema Foundation, organização criada pelo cineasta norte-americano Martin Scorsese, Limite pode ser digitalizado.

O filme possui uma trilha sonora organizada por Brutus Pedreira e composta por trechos de obras clássicas, em uma seleção de compositores como Satie, Debussy, Ravel, Stravinsky e outros. Calil, contudo, sustenta que a música, ainda que ofereça uma segunda camada semântica à obra, não é determinante. As imagens do filme são a essência da obra de arte e de seu valor.

Leonardo Martinelli falou do trabalho de criação da nova trilha sonora, escrita para um conjunto de câmara com dois violinos, viola, violoncelo, contrabaixo, clarinete (“que deveria receber três cachês, pois toca três instrumentos”), trompa e um instrumentário de percussão. Disse que foi um trabalho desafiador, pois, diferente de outras trilhas, a música acompanha o longa em suas duas horas de duração, sem interrupção.

Em Limite, duas mulheres e um homem, à deriva em um pequeno barco no mar, relembram, por meio de flashbacks, episódios marcantes de seu passado. Não é um filme fácil, ao contrário, é um “filme de arte”, não linear, que exige do espectador sensibilidade para seus elementos artísticos, ritmos de imagens e enquadramentos. O longa tem uma ambição experimental – diferente, por exemplo, dos filmes mudos de Charles Chaplin ou do expressionismo alemão, em que entretítulos inseridos entre as cenas apresentam os diálogos e contam a história. 

Com inventividade, Leonardo Martinelli criou uma partitura explorando os timbres das mais variadas combinações instrumentais. O desenvolvimento musical dá-se em um fluxo contínuo de blocos musicais que se sucedem em estrita correspondência com as imagens. O amplo set percussivo também é usado para estabelecer pontes entre os episódios sonoros. Há sequências de progressões comandadas por batidas ritmadas, assim como efeitos instrumentais – chuva, chiados, roncos –, que reforçam o protagonismo musical da percussão. 

Com rara competência, propondo uma nova dimensão poética para as sequências cinematográficas, o compositor escreve uma música que transmite uma ampla gama de afetos, soando por vezes misteriosa, por vezes conformada, por vezes assustada, por vezes tensa, suspensa ou resignada. No todo, o resultado é consistente e emocional.

Entre as muitas expressivas ideias de Martinelli, quero destacar duas que me vêm à memória: primeiro, o uso de uma pianola de brinquedo, de timbre muito característico, em uma extensa passagem do filme, que inclui também um inspirado trecho musical para o filme de Charles Chaplin; e depois, bem ao final, a música que acompanha a cena da locomotiva – creio que todos que conhecem o Trenzinho caipira de Villa-Lobos ficaram atentos e se deslumbraram com a inventividade e originalidade do compositor.

A trilha sonora de Leonardo Martinelli, ao construir um discurso orgânico que abarca toda a obra, constitui uma leitura musical criativa e coerente do universo poético criado por Mário Peixoto.

É importante também nomear os excelentes músicos do Percorso Ensemble, que atuaram sob direção de Ricardo Bologna: Eliane Tokeshi e Paloma Pitaya nos violinos, Ederson Fernandes na viola, Douglas Kier no violoncelo, Pedro Gadelha no contrabaixo, Bruno Ghirardi no clarinete, Tayanne Sepulveda na trompa e Rubén Zúñiga na percussão.

A trilha sonora para Limite enriquece o catálogo de obras do compositor Leonardo Martinelli, autor de óperas, música sinfônica e música de câmara. E em novembro tem mais: nos dias 12, 13 e 14, o Coro da Osesp sob regência de Thomas Blunt estreia Cânticos da Casa do Sol, sobre versos de Hilda Hilst, para coro, quatro pianos e quatro percussionistas. Não perca!

Exibição de Limite, com trilha de Leonardo Martinelli, na Estação Motiva Cultural (Revista CONCERTO)
Exibição de Limite, com trilha sonora de Leonardo Martinelli, na Estação Motiva Cultural (Revista CONCERTO)

 

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