Osesp e Meneses estreiam ‘Concerto para violoncelo’ de Marlos Nobre

por Nelson Rubens Kunze 05/08/2019

São dessas coisas raras que merecem aplausos: uma encomenda para a composição de um grande concerto para violoncelo! Desta vez, a solicitação foi para um dos mais importantes compositores brasileiros da atualidade, o decano Marlos Nobre, nascido em Pernambuco há 80 anos. Cinco entidades se juntaram na parceria – a Osesp, a Filarmônica de Minas Gerais, a Filarmônica de Goiás, a Orquestra Petrobras Sinfônica e a Orquestra Gulbenkian, de Lisboa – e, assim, o concerto será apresentado logo em cinco cidades, o que, para uma composição contemporânea, talvez seja ainda mais raro do que a encomenda em si. 

Assisti à estreia feita pela Osesp, na quinta-feira, dia 1º de agosto, na Sala São Paulo, sob direção do maestro Giancarlo Guerrero. O solista foi ninguém menos do que o também pernambucano Antonio Meneses, violoncelista de renome internacional.

Marlos Nobre é um grande compositor, que domina e explora todos os recursos oferecidos por uma orquestra sinfônica. Prolífico, sua obra extravasa em cores e formas. “Compus esse novo Concerto para violoncelo em cerca de três meses, entre meados de dezembro de 2018 e início de março de 2019”, conta o compositor em entrevista a Irineu Franco Perpetuo, publicada este mês na Revista CONCERTO. “Ao escrevê-lo, eu, como sempre faço, coloco em prática dois passos fundamentais: o primeiro é a concepção mental total da obra e o segundo, a criação dos detalhes, ou seja, a escritura. Como criador, sempre insisto nestes dois aspectos.” 

A obra tem uma estrutura tradicional, com um primeiro movimento assertivo e declamatório (Con fuoco), um segundo movimento mais lírico (Estático. Molto lento), para terminar em um Vivo de grande exigência técnica para o solista. Dentro dessa moldura, a criação de Marlos é livre e segue sua rica intuição criativa. Na apresentação de quinta-feira, algumas passagens solistas do primeiro e especialmente do terceiro movimento, acompanhadas por amplas sonoridades orquestrais, nem sempre estiveram suficientemente equilibradas – às vezes, o violoncelo era inaudível em meio à densidade sonora. O movimento central é uma longa narrativa do instrumento solista, permeada de lirismo. No movimento final, um presto virtuosístico, o violoncelo conduz em trilos e escalas motivos temáticos que lembram o conhecido Voo do besouro, de Rimsky-Korsakov. No geral, a obra segue uma linguagem moderna e é bastante acessível. E foi boa e engajada a performance de Meneses e da Osesp, conduzida com ímpeto e determinação por Guerrero. 

Marlos Nobre e Antonio Meneses recebem aplausos [Revista CONCERTO]
Marlos Nobre e Antonio Meneses recebem aplausos após a apresentação do concerto [Revista CONCERTO]

Ímpeto e determinação também não faltaram à obra que fechou a noite, a Sinfonia nº 12, de Shostakovich. Foi uma escolha de repertório infeliz, uma vez que a partitura do compositor russo de certa maneira, por sua linguagem e expressão triunfante, atropelou o concerto de Marlos Nobre. Intitulada “O ano de 1917”, a Sinfonia nº 12 é uma obra laudatória a Lenin e à revolução bolchevique. Idealizada desde os anos 1930, foi composta em 1961, época em que o compositor vivia um momento de relativa distensão com o regime soviético. A sinfonia tem um tom um pouco oficial, triunfante e glorioso, ainda que contenha a força e a originalidade pessoal de Shostakovich. Também aqui a Osesp foi bem, dirigida por Guerrero, que soube transmitir toda a energia e força da partitura.

Abrindo a apresentação, antes das obras de Marlos Nobre e Shostakovich, a Osesp interpretou Franz Schubert, a abertura Rosamunde D 644. Schubert é um clássico com alma romântica. Apesar de imbuído do espírito de sua época, sua escrita tem – além de melancolia – uma leveza e uma transparência própria do classicismo. A leitura de Guerrero realçou o caráter romântico, com um grande efetivo orquestral. Com isso, soaram um pouco pesadas e lentas as cordas e perdeu-se parte da graça e da delicadeza nos andamentos mais acelerados. 

O concerto de Marlos Nobre será apresentado esta semana pela Filarmônica de Minas Gerais, em Belo Horizonte, com solos de Antonio Meneses e regência do maestro Fabio Mechetti; leia mais informações no Roteiro do Site CONCERTO.

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