Notre Dame e a nossa música

por Leonardo Martinelli 19/04/2019

“Esse lugar é terrível”, disse Jacó logo após acordar de um sonho com um lugar que “era a casa de Deus e a porta do céu” (Gênesis 28:17). Inspirado pelo sonho-revelação, Jacó pegou a pedra que usara como travesseiro, ergueu-a aos céus, derramou óleo sobre seu topo e completou “[...] e esta pedra que ergui como uma estela será uma casa de Deus”. No ano de 1163 foi a vez do papa Alexandre III pegar um pedaço de rocha e fincar em uma das ilhas do Rio Sena a pedra fundamental do que cento e oitenta e dois anos mais tarde seria o maior e mais majestoso templo da cristandade, dedicado à Nossa Senhora, isto é, a Catedral de Notre Dame de Paris.

No último dia 15, um incêndio de grandes proporções consumiu todo o telhado do edifício, causando gigantesca destruição. Ainda que o estrago não tenha sido total, muito se perdeu, e a comoção que tal tragédia desencadeou serviu para lembrar (e mesmo ensinar) a razão da importância desse templo, símbolo não apenas para os franceses, mas para o Ocidente cristão como um todo, e aqui também reside uma questão importante para a música.

A ideia que temos de história da música é uma generalização que precisa ser compreendida de forma mais restrita (mesmo quando um livro seja intitulado como “história universal da música” ou algo risivelmente parecido). Isto é necessário porque seus acontecimentos e repertório – a chamada “música clássica” – na prática se restringem ao Ocidente cristão, e é tendo isso em mente que podemos então compreender a real importância da música feita para esse lugar.

Ainda que a construção do templo tenha se alongado por quase dois séculos, duas décadas depois do lançamento de sua pedra fundamental o altar da Notre Dame foi consagrado e então o local passou a abrigar missas e outros serviços da Igreja Católica local. Mas mais que um templo religioso, a Notre Dame foi também o núcleo inicial da Universidade de Paris (cuja escola de teologia seria posteriormente conhecida como La Sorbonne), a qual se associaram os mais reputados intelectuais e professores do mundo (ou melhor dizendo, do Ocidente cristão...), que versáteis e polímatas, também se dedicavam à prática e à criação musical, sobretudo para fins litúrgicos em seu grandioso templo.

Órgão da Catedral de Notre Dame, em Paris [Reprodução]
Órgão da Catedral de Notre Dame, em Paris [Reprodução]

“O conjunto de cantos associados à Notre Dame são tão ambiciosos quanto à catedral para a qual eles foram compostos”, defende o musicólogo Richard Taruskin. “As grandiosas dimensões obtidas por esses compositores têm a ver não apenas com o tipo de reverberação do espaço que suas obras tinham que preencher, mas também traziam a mensagem de um triunfo institucional [...]. Os compositores de Notre Dame aspiraram a uma universalidade sem precedentes”.

Do ponto de vista musical, essa grandiosidade refere-se ao aprimoramento da composição polifônica a um nível de complexidade e maestria. Até aquele momento as práticas musicais eram sobretudo de natureza monódica, na qual uma melodia era executada de forma simples, sem nenhum tipo de acompanhamento ou parte complementar, seja ela tocada ou cantada, tal como o Canto Gregoriano.

Juntar mais partes para engrossar esse coro foi uma estratégia não apenas para se obter mais volume, mas também um precioso veículo para elaboração de uma música de sonoridade então inédita, uma vez que a polifonia desenvolvida por seus compositores foi realizada a partir de um intricado trabalho sobre a partitura. Desse momento em diante “escrever música” passaria a ser sinônimo de “compor música”, processo que definiu toda uma tradição de criação musical que se estende até os dias de hoje e é responsável pela singularidade das práticas musicais no Ocidente cristão em relação às de outras partes do planeta.

Vários compositores são associados à chamada Escola de Notre Dame – entre o mais notáveis, os pioneiros Léonin e Pérotin – e sua influência foi bastante além de Paris, estendendo-se para outras regiões e gerações (tal como o compositor Guillaume de Machaut, muito conhecido por sua Missa de Notre Dame, mas, em tempo, uma referência à Catedral de Reims, também essa consagrada à Nossa Senhora).

Desde então muita água passou por debaixo das pontes do Rio Sena, e até o momento da tragédia, além de ser um dos pontos turísticos mais visitados do planeta, Notre Dame de Paris seguia como uma referência musical no mundo moderno, reinventando-se como espaço de apresentações ao oferecer uma rica temporada de concertos, contando inclusive com um conjunto musical fixo e de um grandioso órgão de tubos, que miraculosamente foi poupado pelas chamas. Tudo leva crer que o incêndio não foi um ponto final da história, que também na música seguirá inspirando ouvidos, mentes e almas ainda por muitos séculos.

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