Zanon, Murray e Quaternaglia: o violão brasileiro em sua melhor forma

por Camila Fresca 03/05/2019

Terminei o artigo sobre os CDs de 2018 mencionando dois títulos que ainda não havia conseguido ouvir. Eram dois lançamentos de violão aos quais se soma, agora, o mais novo disco do Quaternaglia, “Four”. 

Daniel Murray é um talentosíssimo violonista brasileiro que, aos 37 anos, já pode olhar para trás e fazer uma retrospectiva de sua trajetória. 14 anos é a idade que seu filho tem hoje, e foi também um momento-chave em sua carreira, quando teve acesso ao arranjo de Paulo Bellinati para Valsa brasileira. Assim começa a viagem bastante pessoal do disco “14-37”, no qual Daniel, com delicadeza e sensibilidade, registra obras que possuem um sentido especial em sua vida profissional.

São todas peças brasileiras, com destaque para autores importantes do universo violonístico como João Pernambuco, Baden Powell, Paulo Bellinati, Guinga ou Egberto Gismonti. A vertente de arranjador de Murray está presente em Tenebroso (Ernesto Nazareth) e Perto do coração (Nelson Ayres), entre outras. Já seu trabalho como compositor, que passou a ganhar mais espaço a partir do álbum “Autoral”, de 2014, pode ser ouvido nas peças Canção e dança e Pro Chico improvisar. Trata-se, portanto, do quinto álbum solo de um artista que, antes dos 40 anos, já tem muita história para contar.

 

Se Murray trata do Brasil, Fabio Zanon amplia seu olhar para todo o continente no disco “Americas”. É difícil falar desse músico sem usar adjetivos eloquentes. Zanon está no auge de sua maturidade artística e segue com altíssimo nível técnico, que aqui fica a serviço tanto de singelas canções quanto de virtuosísticas peças. No texto do livreto, ele explica que a ideia surgiu a partir dos jogos Pan-Americanos realizados no Rio de Janeiro em 2007. “O Pan nos deu uma oportunidade de voltar nosso olhar para os países vizinhos que, dada a posição geopolítica do Brasil, nos parecem distantes. O Pan encheu nossas ruas com gente de cultura afins, mas com quem raramente interagimos. Foi dos raros momentos em que países, alguns pequenos, que estão ausentes de nossas preocupações diárias e dos noticiários, viveram um momento de protagonismo. É bom encontrar pessoas e conversar sobre Trinidad e Tobago ou El Salvador.”

Nas 22 pequenas peças que formam o disco, somos levados à música de culturas familiares, como Paraguai, Argentina (destaque para o tango El dia que me quieras, em tocante arranjo e interpretação), Cuba e, claro, Brasil. Mas também conhecemos joias musicais da Venezuela, Equador, Haiti ou El Salvador, sempre em impecável e contagiante interpretação.

 

A América também é o foco de “Four” recente CD do quarteto de violões Quaternaglia. A presença de quatro compositores, quatro obras e quatro violões inspirou o nome do disco, que se abre com Así era la dancita aquella!, divertimento de Leo Brouwer escrito para o grupo e que recebe aqui sua primeira gravação. A segunda peça é um ótimo arranjo de Thiago Tavares (igualmente feito a pedido do conjunto) para as Danças sinfônicas de West side story, do norte-americano Leonard Bernstein, interpretada com brilho e personalidade. Four for tango, original para quarteto de cordas, é a primeira incursão do Quaternaglia na obra de Astor Piazzolla, e com excelente resultado. A peça tem um forte componente percussivo, muito bem explorado no arranjo de Fabio Ramazzina, um dos integrantes do conjunto. A obra que encerra o disco é igualmente dedicada ao Quaternaglia: Memorial para un regreso, do chileno Javier Farias, suíte em três movimentos escrita em homenagem a Pablo Neruda. 

 

É importante registrar que tanto o disco de Fabio Zanon quanto o do Quaternaglia são lançamentos da Guitarcoop. Mais do que uma gravadora, trata-se de uma plataforma multimídia especializada em violão, criada e gerida por músicos. A Guitarcoop tem estado por trás de diversos lançamentos violonísticos nos últimos tempos. Sobretudo de novas gravações, mas também de preciosidades, como os raros registros da cantora e violonista Olga Praguer Coelho ou ainda do Duo Abreu em recital de 1970. 

Tanto a qualidade dos lançamentos quanto a existência de uma plataforma como a Guitarcoop atestam que, para nossa felicidade, o violão brasileiro continua em ótima forma.

Os CDs comentados neste texto estão disponíveis na Loja CLÁSSICOS; clique aqui.

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Fabio Zanon [Divulgação / Eduardo Sardinha - Guitarcoop]
Fabio Zanon [Divulgação / Eduardo Sardinha - Guitarcoop]