Um teatro de ópera para São Paulo

por Nelson Rubens Kunze 03/02/2019

Enfrentar o modelo bipolar extinguindo a Fundação é passo fundamental para a modernização do Theatro Municipal

A reestruturação da Osesp e a inauguração da Sala São Paulo, em 1999, estabeleceram um divisor de águas na atividade clássica brasileira, que impacta positivamente o setor até os dias de hoje. A inciativa traz em seu DNA a assinatura de Mário Covas, então governador do estado de São Paulo. Foi Covas que abraçou o projeto visionário de Marcos Mendonça e John Neschling. E foi Covas que, com comprometimento e responsabilidade, garantiu o respaldo politico e os recursos financeiros para sua concretização.

Outro Covas, o neto Bruno, prefeito de São Paulo, tem hoje nas mãos a oportunidade de criar o primeiro teatro de ópera moderno do Brasil, com o Theatro Municipal de São Paulo. 

O Theatro Municipal de São Paulo é um dos maiores equipamentos culturais da América Latina. Compreende não apenas o histórico edifício da Praça Ramos de Azevedo, mas também a Praça das Artes com o belo e restaurado edifício do antigo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Para dar vida e sentido a este grande complexo, o Theatro Municipal mantém mais de 200 artistas de ponta – alguns dos melhores instrumentistas eruditos e cantores líricos do país – e um maestro de nível internacional. 

Infelizmente, contudo, o Theatro Municipal está longe de desempenhar sua vocação e devolver à cidade e a sua população aquilo que dele se espera, que é o de ser um teatro de ópera vivo, gerador e difusor de cultura, entrosado na cidade e articulado no mundo, com programação regular de excelência anunciada com antecedência, um teatro comprometido com a educação e formação cultural dos cidadãos paulistanos.

O primeiro e principal entrave para o funcionamento do teatro é a sua estrutura administrativa. Desde 2012, o órgão está submetido à Fundação Theatro Municipal de São Paulo (FTM). É uma fundação pública, cuja lei de criação determina uma complexa estrutura organizacional e a possibilidade da contratação de uma Organização Social para apoiá-la na gestão. 

A solução bipolar Fundação-Organização Social, contudo, revelou-se desastrosa. É um monstrengo de duas cabeças, que já gerou um esquema criminoso de desvio de verbas e agora levou o teatro a uma nova crise, que culminou com a saída do secretário André Sturm. O modelo bipolar embaralha competências e responsabilidades e impossibilita uma governança institucional clara. Interpondo a fundação pública como uma instância intermediária entre a Prefeitura e a OS, a solução esdrúxula compromete a gestão e o controle de todo o modelo. 

Assim, a primeira tarefa para a construção da instituição Theatro Municipal de São Paulo é a de extinguir a Fundação. A segunda, é a de abraçar o modelo de gestão por meio de Organização Social, celebrando uma verdadeira parceria público-privada. Se a sua execução não é trivial, o conceito é simples: por um lado, a Prefeitura define os rumos da política cultural que deve nortear o equipamento e exerce a fiscalização e o controle; de outro lado, a Organização Social assume a gestão do equipamento, com toda a autonomia e respectivas responsabilidades. Se funciona no estado, vide a Osesp, por que não funcionaria no município?

A alteração do modelo de gestão e a parceria com a Organização Social transformarão o Theatro Municipal em uma instituição moderna pronta para enfrentar os desafios da contemporaneidade. Um teatro que sirva à sociedade, inserido no tecido social, um teatro que compreenda cultura como instrumento de educação e transformação. Só assim o Municipal de São Paulo poderá perseguir seus objetivos de excelência e qualidade artística, seja no âmbito da difusão, garantindo o acesso de toda a população ao grande patrimônio musical universal, seja no âmbito da educação, ao contribuir para a formação integral e humanista de crianças e jovens de todas as camadas da população.

Fiquei esperançoso com as primeiras ações do novo secretário da cultura Alê Youssef. A gestão municipal do prefeito Bruno Covas fará história – como a do avô Mário – se concretizar a tarefa de dotar a cidade de São Paulo de um moderno e dinâmico teatro de ópera. Será um novo paradigma para a história da cultura no Brasil.

Leia também:
Notícia: Secretaria suspende temporariamente denúncia contra o Instituto Odeon
Texto: Theatro Municipal à deriva, por Nelson Rubens Kunze

Theatro Municipal de São Paulo [divulgação / Sylvia Masini]
Theatro Municipal de São Paulo [divulgação / Sylvia Masini]