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Moderna e brasileira: "A Valquíria" do Municipal (18/11/2011)
Por Irineu Franco Perpetuo

“Moderna e brasileira”, o slogan de uma certa FM, poderia servir muito bem de definição da montagem de A Valquíria”, de Wagner, que estreou na última quinta-feira, dia 17, no Teatro Municipal de São Paulo.

Para falar a verdade, fui assaltado pelo mais atávico dos pânicos quando o diretor André Heller-Lopes anunciou que faria uma Valquíria brasileira. Imediatamente me veio à mente o “samba do crioulo doido” levado aos palcos de Manaus em 2007 por Christoph Schlingensief com sua versão “tropical” de O Navio fantasma: um amontoado ingênuo e caótico de clichês e estereótipos, ao qual não faltaram obviedades como mulatas seminuas e bateria de uma escola de samba...

Heller-Lopes, felizmente, passou longe de tais platitudes e da “macumba para turista”. No texto do programa, ele diz: “não esperem encontrar o Saci Pererê ou Iara nesta encenação; incluí-los, pelo simples fato de serem lendas do folclore brasileiro, seria transformar algo que é universal em uma pequena piada de salão – como seria um tanto cômico ter nossos heróis em capacetes Vikings, com seus costumeiros chifres e peles de urso”.


Cena da ópera A Valquíria, no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação/ Eloisa Bortz]

Efetivamente, a montagem não apenas escapou dos balangandãs mais óbvios, como ainda ressignificou os elementos escolhidos dentro da linguagem plástica e dramatúrgida do espetáculo. Luz, cenário, figurino e direção de atores dialogavam entre si e constituíam um discurso teatral sólido e convincente.

Em um espetáculo tão longo e cheio de detalhes, é possível não gostar dessa ou daquela miudeza. Mas eu, particularmente, me considero convencido pelo todo. Posso até ter meus senões com a burca e o apartamento “moderno” do primeiro ato, mas fiquei encantado com a sala de ex-votos do segundo - dramática e musicalmente, o coração do espetáculo.
Do ponto de vista musical, o discurso wagneriano é conduzido pela orquestra, e o maestro Luiz Fernando Malheiro teve trabalho em domar uma Orquestra Sinfônica Municipal dotada de bons músicos, mas ainda em fase de reestruturação como conjunto.

Particularmente, achei que o primeiro ato sofreu especialmente com o “freio de mão puxado” e as inseguranças de uma orquestra com solos infelizes e tendências a desencontros e atrasos. A partir do segundo ato, contudo, o rendimento geral cresceu, e a ópera fluiu com maior naturalidade.

Vocalmente, os destaques foram Hunding e Fricka. O baixo norte-americano Gregory Reinhart demonstrou enorme solidez como o vilão da ópera, com um registro grave particularmente sonoro e impressionante. Já Denise de Freitas não foi menos que arrebatadora no papel da mulher traída de Wotan, com uma vocalidade para lá de robusta e uma caracterização matizada e inteligente.


Cena da ópera A Valquíria, no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação/ Eloisa Bortz]

Muita gente temia pelo Siegmund de Martin Mühle, que parecia leve demais para a parte. Mas o tenor esteve à altura da tarefa; foi um Siegmund lírico, com brilho no registro agudo, e conseguiu vencer a bronquite e construir uma caracterização convincente de seu papel.
A seu lado, Lee Bisset foi uma Sieglinde algo fria - especialmente se levarmos em conta a intensidade e o vigor demonstrados por Eiko Senda no mesmo papel, nos ensaios. A esbelta Brünnhilde de Janice Baird me incomodou pelas ocasionais escorregadas no “r” anglo-saxônico ao lidar com o texto - mas talvez seja só implicância de crítico chato. Tampouco fiquei especialmente impressionado com o Wotan de Stefan Heidemann, coberto pela orquestra em algumas passagens do segundo ato, embora deva reconhecer que ele possui a voz adequada para o papel e demonstrou toques de sutileza e refinamento em sua parte.

No geral, ao final da récita, o clima era de alma lavada: os micos do Rigoletto parecem ter sido exceção, e o Municipal finalmente está com cara de poder produzir espetáculos à altura das ambições e vocação da casa. Agora, é torcer para que haja condições para que essa Valquíria não seja uma produção isolada, e realmente se torne o ponto de partida de um Anel completo. Pois esse ponto de partida bem poderia funcionar como o ponto de virada de um teatro ainda em busca de si mesmo.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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