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Crepúsculo e Bob Wilson: Municipal ambicioso em 2012 (5/3/2012)
Por Irineu Franco Perpetuo

Dizem que, de boas intenções, o inferno está cheio. Então eu não sei o quão a sério podemos levar a temporada 2012 do Teatro Municipal de São Paulo, extra-oficialmente divulgada na edição de março da Revista CONCERTO. De qualquer forma, se a lista corresponder à realidade, temos tudo para desfrutar de uma programação de ópera variada e estimulante.

 

Claro que existem todos os motivos do mundo para ficarmos ressabiados. Primeiro porque, conforme altas fontes lá do próprio teatro me dizem, neste ano a verba da casa sofreu um corte de R$ 6 milhões com relação a 2011. Ou seja, eles estão com menos dinheiro para fazer mais.

 

Depois, porque, no final de maio, o Municipal deve ficar fechado por dois meses, para adaptação a essa caixa-preta que convencionamos chamar de Fundação. E, no fim, porque estamos em ano eleitoral - e quaisquer produções programadas para depois do pleito de 7 de outubro ficam sob séria ameaça.

 

Essa espada de Dâmocles pende justamente sobre alguns dos itens mais promissores da programação. Caso do programa duplo de romantismo tardio dirigido por Felipe Hirsch (13 a 22 de outubro), com dois títulos raros e estimulantes Violanta, de Korngold, e Uma Tragédia Florentina, de Zemlinsky.

 


Montagem do diretor Robert Wilson [foto: divulgação]

Ou, ainda, daquela que, para mim, seria a maior expectativa: uma co-produção com o Teatro Comunale de Bologna, com direção de ninguém menos do que Bob Wilson (23 a 30 de outubro). O público mais tradicional pode torcer o nariz para Wilson o quanto quiser, mas eu vou ficar assanhadíssimo para ver uma produção desse gênio do teatro no palco do Municipal.

 

O final do ano traz ainda Antonio Araújo, do Teatro da Vertigem, especializado em encenações arrojadas em espaços públicos, fazendo Orfeu e Eurídice, de Gluck, na ainda não inaugurada Praça das Artes (27 de outubro a 3 de novembro). E Jamil Maluf, espremido com apenas três récitas, em dezembro (8 a 10), para um título que ele deve, como de hábito, tirar de letra: O Rouxinol, de Stravinsky.

 

Entre as coisas que parecem relativamente a salvo das tempestades, destaque, em agosto, para Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses) de Wagner - mais um passo da dupla Luiz Fernando Malheiro e André Heller-Lopes na direção de uma inédita e muito bem-vinda tetralogia paulistana do Anel.

 

Tudo isso, é claro, toureando a já proverbial desorganização dos gestores municipais de Cultura de São Paulo. Desorganização essa que, por exemplo, deixava todos os intérpretes da anunciada La Traviata, deste mês, com os cabelos em pé, pois seus contratos ainda não haviam saído em fevereiro (mês passado), nem, consequentemente, suas passagens para o Brasil emitidas e enviadas; ou que fez os membros de um elenco prestes a ensaiar Così fan Tutte serem informados à última hora que a ópera mozartiana que eles teriam de interpretar seria outra, Idomeneo (14 a 17 de abril). No final do ano, como de costume, faremos o placar, mas a torcida é para que, pelo menos dessa vez, a arte consiga vencer a burocracia.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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