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Lang Lang (23/5/2012)
Por Nelson Rubens Kunze

“Não pode comparar com o que você conhece”, disse-me um amigo no intervalo do recital de Lang Lang na Sala São Paulo, no último domingo, dia 20 de maio. “Lang Lang é outra coisa.” Mas apreciações exigem referências, comparações, balizamentos. Ainda mais quando o repertório é histórico e abarca Bach, Schubert e Chopin. E, em se tratando de um artista como Lang Lang, temos de pensar nos grandes intérpretes (Gould, Brendel, Maria João Pires, Radu Lupu, Barenboim...). Ou, então, falamos de outras coisas, da cor dos sapatos de Lang Lang (aliás, pretos), de seus cabelos (que, pena, não estavam arrepiados), do encontro social, da sopinha no hall da Sala São Paulo, dos CDs da Loja CLÁSSICOS...

Bach, como se sabe, serve para tudo, até para versões em ritmo de chorinho (algumas, muito boas!). O Bach (Partita nº 1) de Lang Lang não foi isso, as notas eram as do mestre alemão, ainda que, de vez em quando, a música barroca fosse irreconhecível. Rubatos estendidos, dinâmicas extremas, fraseados narrativos – um novo mundo, muito distante daquele da primeira metade do século XVIII. Não há problema em novas contextualizações ou leituras para a arte histórica; mas elas esvaziam a obra se elas se transformam apenas em suporte de sentimentalismos pessoais. Para a música barroca, isso é fatal.

Já a Sonata D 960 de Schubert, por sua carga emocional e linguagem interior, seria música mais adequada ao gênio do virtuose chinês? Parece que não. Aqui, os excessos interpretativos também se sobrepuseram à delicadeza e/ou tensão dramática da obra, uma das mais belas criações da maturidade de Schubert. Dinâmicas e fraseados exagerados, um som por vezes superficial e pouca atenção a acabamentos comprometeram a interpretação.

O pianista chinês Lang Lang [divulgação]

Sobraram os Estudos op. 25 de Chopin, o melhor da noite. E aqui a postura de Lang Lang parece que encontrou respaldo e a sua espantosa habilidade técnica viu limites a serem desafiados. Foi impressionante a capacidade com que o jovem artista se desvencilhou das dificuldades desse verdadeiro tour de force pianístico e, aqui sim, seu virtuosismo veio carregado de intensa musicalidade.

Em seu recital na Sala São Paulo, Lang Lang mostrou por que é a sensação da música clássica atual: tem uma técnica transcendental (deu para “ver” nos Estudos de Chopin), é carismático, gosta do palco, olha para a plateia enquanto toca, e faz caras, bocas e gestos para transmitir a mensagem musical. Lang Lang, contudo, não chacoalha a estrutura antiquada e formal do recital de piano “modelo século XIX”, como poderia se supor. Ao contrário. Com seu comportamento, Lang Lang reforça o estereótipo do gênio virtuose romântico, catapultando essa imagem e adequando-a ao espaço da moderna sala de concertos, da indústria fonográfica, dos programas de televisão, da cultura de massas. E, afinal, é essa a nossa realidade.

Torçamos para que Lang Lang possa mesmo arrebatar novas plateias para a música de concerto.

(P.S.: Virtuose chinês por virtuose chinês, fico com a Yuja Wang e seu vestidinho vermelho, que assistimos no ano passado junto com a Osesp. Aquilo sim foi entretenimento com cultura!...)





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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