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Domingo à tarde também é dia de música (21/11/2012)
Por Marco Aurélio Scarpinella Bueno

Confesso que no último domingo fui assistir ao concerto da Orquestra de Câmara da Osesp um tanto dividido, afinal de contas como bom palmeirense sentia-me na obrigação moral de não abandonar o “alviverde imponente” (que anda tão impotente) em sua melancólica tentativa de permanecer na Série A do Campeonato Brasileiro. Na completa ausência do futebol arte do meu time de coração, valeu a arte maior do maestro Giancarlo Guerrero e dos músicos da Osesp em um programa para lá de eletrizante com obras de Revueltas, Shostakóvitch, Shnittke e Bartók.

De uma forma geral a música do mexicano Silvestre Revueltas (1899-1940) é tão intensa quanto foi a sua breve vida. Quase que exclusivamente lembrado pelo poema sinfônico Sensemayá (que Leonard Bernstein ajudou a eternizar em um disco sintomaticamente intitulado Latin American Masters com obras do conterrâneo Carlos Chávez e dos brasileiros Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Lorenzo Fernández), a Osesp nos brindou com Homenagem a Federico Garcia Lorca, composta em 1936 e uma de suas composições mais criativas.

Seus três movimentos são tocados ininterruptamente e formam um contraste bastante interessante. Se em Duelo, o movimento central, predomina uma atmosfera contemplativa onde o trompete (tocado por Antonio Carlos Lopes Jr. de forma irrepreensível) e o piano reforçam o caráter elegíaco ao poeta espanhol recém-assassinado, Baile e Som (os movimentos externos) alternam ritmos metamorfoseados de Mariachi com o neoclassicismo tão em voga na Europa do entre guerras e que foram muito bem explorados pelo regente e seu conjunto.

Revueltas, fã ardoroso da Revolução Bolchevique, jamais realizou o sonho de visitar a ex-União Soviética. Talvez mudasse de ideia se encontrasse Dmítri Shostakóvitch (1906-1975), que por duas vezes foi forçado a fazer um mea culpa perante Stálin. Dos seus 15 quartetos de cordas, verdadeiro diário íntimo de um dos compositores mais interessantes do século passado, o violista e regente Rudolf Bárshai (1924-2010) arranjou quatro para orquestra de cordas, os de nos 3, 4, 8 e 10.

Foi justamente a versão do oitavo quarteto, intitulada Sinfonia de Câmara, op. 110a, que a Osesp escolheu para seu concerto. Composto durante uma visita a Dresden em julho de 1960, este quarteto ainda é tema de discórdia entre aqueles que o consideram uma obra dedicada “às vítimas do fascismo” (o jeito de Shostakóvitch ficar “bonito na foto” como diria o público mais jovem presente à Sala São Paulo) ou dedicada a ele mesmo, vítima maior do totalitarismo soviético, tamanha a citação de obras da juventude e de sua própria assinatura musical a partir do monograma DSCH na notação germânica (Dmítri SCHostakovitch ou Ré-Mi bemol-Dó-Si).

Giancarlo Guerrero é um maestro de gestos contidos, mas precisos. E isso é fundamental em uma obra de forte apelo emocional, que os membros da Osesp tocaram com esmero e sentimento, mantendo uma atmosfera de angústia que perpassa toda a música. Especialmente memoráveis foram o segundo movimento, explicitamente violento, onde Shostakóvitch reutiliza sua famosa (e frenética) melodia judaica extraída do Trio para piano nº 2, e as incursões da violoncelista Marialbi Trisolio e do violinista Yuriy Raquevich que brilharam por mais de uma vez, especialmente no penúltimo largo.

Após o intervalo subiu ao palco a pianista titular da Osesp, a uzbeque Olga Kopylova, para solar o Concerto para piano e cordas de Alfred Shnittke (1934-1998), compositor que teve várias de suas obras apresentadas ao longo do ano, em formações diversas. Composto em 1979, quando Shnittke já explorava outras técnicas de composição que não apenas o poliestilismo, seus três movimentos – allegro-andante-allegro – são tocados ininterruptamente como que reiterando o caráter cíclico da vida humana – “no final tudo volta ao início”. Kopylova foi muito segura desde o início, em que uma lenta e repetitiva toccata assume um caráter mais enérgico, passando com bravura por sonoridades diversas que ora lembram fantasmagóricas valsas, ora passagens de jazz (em que fez um belo duo com o contrabaixista Alexandre Rosa). A escrita pianística é bastante idiomática, repleta de clusters tocados com a palma das mãos, que exigem não apenas virtuosismo, mas também boa dose de preparo físico. A obra traz um subtítulo, "Não Variações Sobre um Tema", forma bem humorada de Shnittke fazer menção ao fato de que cada variação apresentada baseia-se em elementos distintos do tema, o hino litúrgico russo Góspodi pomílui – Senhor Tende Piedade de Nós, o qual por sua vez só é ouvido em sua totalidade no final da peça, e que ouvintes mais atentos já identificaram em obras de Tchaikóvski ou Rakhmaninov.

Mas ainda houve tempo para Guerrero e a Osesp tocarem as Danças romenas de Béla Bartók (1881-1945), seqüência de seis pequenas peças coletadas pelo mestre húngaro na década de 1910 e idealizadas originalmente para piano solo, mas que fizeram tanto sucesso que acabaram por ganhar uma versão para orquestra de câmara. Inegavelmente gostosas de ouvir e muito bem interpretadas, a meu ver acabaram funcionando como um anti-clímax após o cataclísmico Concerto de Shnittke.

O ponto negativo da apresentação da Orquestra de Câmara da Osesp ficou uma vez mais por conta de dois inesperados toques de celular vindos da plateia (na verdade houve até os gritos de uma criança de colo, rapidamente retirada da sala), cada vez mais altos, bem no meio da cadência do concerto de Shnittke. Falta de respeito é pouco. Será que é tão difícil as pessoas seguirem as orientações e desligarem seus aparelhos antes do início dos concertos?

Felizmente o incidente não rompeu a cumplicidade entre Kopylova, Guerrero e a orquestra, que se mantiveram afiados até o final. Cumplicidade e competência que faltaram ao meu Palmeiras, que amargará a Série B em 2013. Quanto a mim continuarei em meu projeto de desapegar-me do futebol de domingo à tarde. Semana que vem já garanti ingressos para o Macbeth no Teatro Municipal.





Marco Aurélio Scarpinella Bueno - é médico e pesquisador musical.

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