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João Pessoa realiza festival e estreia Sinfônica Municipal (6/12/2013)
Por Nelson Rubens Kunze

Primeiro de dezembro de 2013, início da noite, centro de João Pessoa, Paraíba. Um grande público lota o adro e parte da praça em frente à histórica Igreja de São Francisco. Ali, sob a bonita fachada iluminada, a Orquestra Sinfônica Municipal de João Pessoa (nova denominação para a reformulada Orquestra de Câmara da Capital) se prepara para sua estreia, ao ar livre, que também marca a abertura da primeira edição do Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa. Como obriga a solenidade (e a presença de autoridades como o prefeito Luciano Cartaxo e o secretário municipal de cultura Maurício Burity – responsáveis pela iniciativa), a orquestra, comandada pelo maestro paulistano Laércio Diniz – regente da orquestra e diretor artístico do festival –, ataca o Hino nacional. O programa, entre obras breves e conhecidas (Johann Strauss, Rossini, Tchaikovsky e Villa-Lobos) prevê o Concerto para piano nº 2 de Rachmaninov na interpretação da jovem virtuose ucraniana Anna Fedorova. Um momento emocionante!

Só que se esqueceram de combinar com São Pedro, e uma breve chuvarada quase faz o evento ir literalmente “água abaixo”. Músicos protegiam seus instrumentos, uma lona era rapidamente estendida sobre o piano, e o público, entre frustrado e perplexo, tentava se refugiar no interior da já lotada igreja... O que fazer? Transferir o concerto para o interior da igreja não era solução, uma vez que o público era numeroso demais. Voltar para fora? E a chuva?

Mas São Pedro não estava conspirando contra a orquestra e, uma hora depois, o concerto pode finalmente ter sequência como planejado, ao ar livre, sem outras surpresas meteorológicas. O público, emocionado, adorou! E, não obstante as condições desfavoráveis da apresentação, a orquestra foi bem e Fedorova demonstrou suas qualidades. Como o maestro Laércio Diniz resumiu ao microfone, com bom humor, este acabou sendo o “batismo” inesquecível da orquestra. E foi mesmo!


Anna Fedorova e a Sinfônica Municipal de João Pessoa [fotos: Rafael Passos/divulgação]

Logo no dia seguinte teve início o festival propriamente dito, com masterclasses dos solistas convidados na parte da manhã, seguidas de quatro concertos ao longo da tarde e da noite. As apresentações ocorreram em diversos pontos de João Pessoa, a maior parte delas em igrejas históricas, todas com entrada franca.

Tive a oportunidade de acompanhar o primeiro dia desta verdadeira maratona musical, que reuniu na capital paraibana excelentes músicos do Brasil e de países como Holanda, Bélgica, Austrália, Alemanha e Estados Unidos. E o primeiro dia também evidenciou a riqueza da programação. A primeira apresentação, às 14h, no Mosteiro de São Bento, foi um recital de música contemporânea com o excelente pianista brasileiro Paulo Álvares, radicado há muitos anos na Alemanha. (O pianista, aliás, estará em São Paulo na semana que vem, dias 12, 13 e 14, onde participa do concerto na Sala São Paulo em que a Osesp fará a estreia de uma obra de seu irmão, Eduardo Guimarães Álvares, falecido em março passado). Ruído externo excessivo e uma plateia convidada de alunos da rede pública de ensino (ótima ideia, mas complicada para um repertório dessa natureza...) não tiraram o ânimo do ótimo Paulo Álvares, que realizou uma apresentação de grande categoria e convicção.

O concerto seguinte, às 16h, ocorreu na Igreja Batista e, ao contrário do anterior, em ótimas condições (a Igreja Batista tem até ar-condicionado – nada mal para um dia em que o termômetro batia os 35ºC). O quinteto de cordas paraibano Uirapuru (Rucker Bezerra e Marina Marinho, violinos; Samuel Espinoza, viola; Andrêyna Dinoá, violoncelo; e Hercílio Antunes, contrabaixo) tocou um repertório integralmente composto por autores brasileiros, na melhor tradição de nossa música instrumental. O grupo fez uma bela apresentação, que, por sua vitalidade e pelos motivos nordestinos, encantou a plateia.

A apresentação das 18h aconteceu na Igreja do Carmo e reuniu a flautista belga Barbara Deleu, o oboísta espanhol Eduardo Olloqui, o fagotista australiano James Aylward, a violinista alemã Kerstin Kendler e o violista ucraniano Igor Bobylev, que tocaram, em alto nível, música de câmara de Vivaldi, Julius Röntgen e Beethoven.

Encerrando o dia, no horário nobre das 20h, e desta vez dentro da Igreja de São Francisco, apresentou-se um trio formado pelo violinista paraibano Alberto Johnson, que reside há anos na Holanda, o violoncelista holandês Fred Pot, durante muitos anos spalla de seu naipe junto à Orquestra do Concertgebouw, e a pianista ucraniana Anna Fedorova, solista da orquestra na noite anterior. Os excelentes músicos interpretaram, com notável musicalidade e competência, trios de Mendelssohn e Beethoven.


Público lota igreja para acompanhar recital do Festival Internacional de Música Clássica

O Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa, que segue ainda até amanhã (dia 7/12) e terá no total 22 apresentações, tem patrocínio do BNDES e é uma realização da Prefeitura de João Pessoa por meio da Funjope, Fundação Cultural de João Pessoa. Presidente da Funjope é Maurício Burity, filho de Tarcísio Burity, ex-governador do estado da Paraíba na década de 1980. Aqueles que gostam de música clássica e que viveram naquela época seguramente se lembram do grande impulso que aquele governo promoveu na área da cultura e especialmente da música clássica. A Orquestra Sinfônica da Paraíba de então, que tinha direção do maestro Eleazar de Carvalho, gerou um movimento clássico cujos resultados são sensíveis até os dias de hoje.

Oxalá a nova iniciativa da Prefeitura de João Pessoa possa ser desenvolvida no sentido de oferecer ao Nordeste uma orquestra sinfônica de qualidade, comprometida com a difusão do repertório clássico e com a promoção cultural e social de sua população.

[Nelson Rubens Kunze viajou a João Pessoa e acompanhou o Festival Internacional de Música Clássica a convite da Prefeitura de João Pessoa e da Funjope]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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