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A obsessão com o efeito sobre o público (13/12/2013)
Por João Marcos Coelho

Nossa época é preocupada demais com o efeito sobre o público. A declaração foi recentemente dada por um dos mais notáveis músicos belgas, Sigiswald Kuijken, 69 anos, um dos pioneiros do movimento da música historicamente informada desde finais da década de 1960. Em 1974, ele fundou a Petite Bande, um grupo de referência na interpretação da música barroca. Eles gravaram Rameau, Lully, as paixões, cantatas e música instrumental de Bach, entre outros.

Pois ele comemora o 40º aniversário de sua Petite Bande vendo o governo belga simplesmente cortar todo o subsídio de 600 mil euros anuais que vinha sustentando o conjunto. O argumento utilizado é o da crise, que de fato atinge toda a Europa. Mas, e aí está o fato curioso, outros grupos flamengos, como Anima Aeterna de Jos van Immerseel e o Collegium Vocale Gent de Herreweghe, continuam subsidiados.

Ok, estamos muito longe da Bélgica. Mas os critérios por aqui parecem sintomaticamente iguais. Senão, vejamos. Os critérios que, embora não explícitos, determinaram esta atitude são dois. O primeiro é a odiosa mistura do público com o privado nas decisões de política cultural: gosta-se de um, e este é apadrinhado; monta-se uma igrejinha, e só os da tribo são contemplados com encomendas e espaço na programação; condenam-se os demais à marginalização. Se vocês pensam que isso tem ao menos um pouquinho a ver com qualidade, esqueçam: o critério é o compadrio, a ação entre amigos. O outro critério é o populismo, onde a régua que define a política cultural é a do volume de pessoas que se atinge. Quanto maior este número, mais legitimado está o grupo, instituição, orquestra ou teatro. A secretaria municipal de Cultura de São Paulo lambuza-se há anos esfregando na cara da opinião pública que atinge não sei quantos milhões de pessoas na Virada Cultural, com milhares de eventos empilhados em 24 horas. Gasta-se numa virada completa de um dia o suficiente para tocar uma política permanente de eventos o ano inteiro. Mas que importância tem isso? O negócio é obter números altissonantes, lotar os teatros a qualquer custo. Isso é populismo da mais pura safra.


Sigiswald Kuijken e Francis Hime: qualidade artística e impacto sobre o público [fotos: divulgação]

A temporada lírica de 2014 do Theatro Municipal de São Paulo é um tributo ao populismo. Só óperas-ícones do repertório. A ideia sub-reptícia é chegar ao final do ano sacudindo estatísticas apontando que o público do teatro aumentou em tantos por cento. De igual modo, em 2014 – ano de Copa – São Paulo vai entronizar Francis Hime como nosso grande compositor contemporâneo: na Praça Ramos ele vai assinar uma ópera sobre futebol, na Júlio Prestes comete “concertos”. Os lances populistas incluirão, fala-se, até CDs com música para turistas.

O compadrio aliado ao populismo tem sido a regra na condução da política cultural no país. E promete continuar, das mostras de estilistas abençoadas pela ministra da Cultura com incentivos fiscais a óperas futebolísticas e concertos-arranjos instrumentais. Mas não reclame muito: nos primórdios da Lei de Incentivos, nos anos 1980, que se chamou inicialmente Lei Sarney – toc! toc! toc! –, um editor do Paraná lançou uma série de livrinhos de sacanagem tipo Carlos Zéfiro com incentivo fiscal. No fundo, nada diferente do Cirque du Soleil ou Roberto Carlos subsidiados pela Lei Rouanet hoje em dia.

Isso é ou não é populismo? Ou, como se pergunta amargamente Sigiswald Kuijken, sequela podre da busca obsessiva pelo efeito sobre o público?

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João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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