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“Mefistofele” abre 13ª edição do Festival de Ópera do Theatro da Paz (7/8/2014)
Por Nelson Rubens Kunze

Com uma interpretação que explora arrojadamente o lado religioso, estreou no dia 5 de agosto, em Belém, Mefistofele, de Arrigo Boito. Primeira produção do 13º Festival de Ópera do Theatro da Paz, a montagem seguiu o bom nível artístico que o festival tem alcançado em suas últimas edições. Não é um título fácil: além dos desafios para a direção técnica – basta dizer que a obra começa no céu e termina no inferno –, a partitura exige solistas de envergadura, grande orquestra, coro, e coro infantil.

Mefistofele é a única ópera completa de Arrigo Boito (1842-1918), compositor italiano talvez mais conhecido por ter sido libretista de Verdi (Falstaff e Otello), Carlos Gomes (Maria Tudor) e Ponchielli (La Gioconda). A primeira versão da obra, com quase 6 horas de duração, não foi bem recebida quando de sua estreia em 1868, no Scala de Milão. Boito então revisou a partitura concebendo a versão que finalmente entrou para a história, com um prólogo, quatro atos e um epílogo, e quase duas horas e meia de música.

O enredo é baseado no Fausto de Goethe: Mefistófeles, enviado de Satanás, em uma aposta com Deus, faz um pacto sinistro com Doutor Fausto, um velho sábio, que acaba por lançar na tragédia a jovem Margarida. A obra-prima de Goethe é uma das mais profundas elaborações humanas acerca da existência, sentido e finitude da vida.


Baseada na obra-prima de Goethe, a ópera narra o pacto feito entre o Dr. Fausto e o diabo

Foi ótimo e convincente o resultado da encenação dirigida por Caetano Vilela. Logo no Prólogo, quando Mefistófeles desafia Deus, é apresentado um teatro de marionetes, sugerindo a ideia dos homens sendo manipulados pelo todo poderoso. A concepção traça paralelos entre o enredo da ópera e a história de Adão e Eva expulsos do paraíso. Em uma profusão de criativas soluções cênicas (cenografia de Chris Aizner), Caetano não perde de vista o arco dramático, criando passagens de grande impacto emocional. Como, por exemplo, no fim do segundo ato, quando Adão e Eva, nus e indefesos, se veem em meio à festa das bruxas da noite de sabbat. Catapultada do paraíso e agora cercada por bruxas, a dança de Eva, inteiramente despida, num transe quase catártico, lança luz sobre cantos recônditos da alma humana e confere uma nova dimensão à tragédia enfrentada pela desenganada e desesperada Margarida.

Mefistofele contou com um elenco de destacados solistas, encabeçado pelo excelente baixo russo Denis Sedov no papel do diabo. Com bonito e homogêneo timbre, Sedov atuou com natural desenvoltura cênica e teve seu melhor momento no exigente monólogo inicial. Doutor Fausto foi feito pelo tenor Fernando Portari, uma das grandes vozes brasileiras da atualidade. Após um início regular, Portari protagonizou algumas das passagens mais emocionantes do espetáculo. A soprano paraense Adriane Queiroz, radicada há muitos anos na Alemanha onde pertence ao elenco fixo da Ópera Estatal de Berlim, interpretou Margarida. Adriane é uma artista especial, de belo timbre, e teve marcante presença vocal e cênica. Completaram o time de solistas Maíra Lautert (como Helena de Troia), Celine Imbert (como Marta e Pantalis), Tiago Costa (como Wagner) e Alexsandro Brito (Nereo).


Cena do Mefistofele, de Boito, realizado pelo Theatro da Paz [fotos: Geraldo Ramos/divulgação]

Com competente direção musical e regência de Miguel Campos Neto, é preciso realçar ainda a boa performance musical oferecida pela Orquestra do Theatro da Paz, pelo Coral Lírico (direção de Vanildo Monteiro) e pelo Coral Infanto-Juvenil Vale Música (direção de Elizety Rêgo).

Depois das produções levadas à cena nos últimos anos (eu assisti Tosca, Salomé e O navio fantasma), este Mefistofele só vem reafirmar a qualidade alcançada pelas montagens do Theatro da Paz. Este ano ainda tem Blue Monday, de Gershwin (dias 22 e 23 de agosto), e Otello, de Verdi (dias 20, 22 e 24 de setembro). Para quem não reside em Belém, só resta lamentar que estas encenações não sejam levadas também para outras cidades do Brasil. Ou então, pegar o avião e conhecer in loco o Theatro da Paz, que, além de tudo, é um dos mais belos do Brasil.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belém a convite do 13º Festival de Ópera do Theatro da Paz]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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