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Diário de Salzburgo 2014 – Parte 1 (18/8/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

Dia 1 (15/08): Don Giovanni
Vento, chuva, 16 graus – assim é o verão de 2014 em Salzburgo. Na cidade natal de Mozart, nada melhor do que começar a acompanhar o festival por uma nova produção de Don Giovanni, devidamente registrada e transmitida para o resto do planeta por câmaras de televisão. Consequentemente, já é possível apreciar trechos da montagem no YouTube.

Sven-Eric Bechtolf optou por empregar um cenário fixo – uma saguão de hotel dos anos 1920, uma espécie de Grande Hotel Budapeste –, tentando atenuar a consequente monotonia visual com truques de iluminação e uma movimentação constante de figurantes, dentre militares, criadas e uma ou outra inserção demoníaca, alusões a um pacto fáustico que Don Giovanni teria feito.


Ildebrando d'Arcangelo como Don Giovanni, no hotel de Bechtolf [foto: Michael Pöhn/divulgação]

A prioridade do diretor parece ser escancarar a carga de sensualidade da ópera: Ildebrando d'Arcangelo, o protagonista, é claramente caracterizado como um latin lover, e a cena mais “quente” da encenação acontece em Vedrai carino, quando Alessio Arduini (Masetto) e Valentina Nafornita (Zerlina) se despem, ficando em trajes mínimos, prestes a consumar seu amor. No final, Don Giovanni é reabilitado: enquanto os demais personagens cantam sua condenação, ele “ressuscita”, retomando a conduta de libertino e flertando com as criadas do hotel – o resultado de seu pacto com o diabo.

Musicalmente, Christoph Eschenbach realizou uma leitura “romântica” e portanto, para o gosto predominante hoje, arcaica, procurando extrair sonoridades densas e “pesadas” de uma sempre impecável Filarmônica de Viena.

Dentre os cantores, o óbvio destaque e razão de ser da produção é a vocalidade robusta e uniforme de D`Arcangelo, um baixo-barítono impressionante em todos os registros e sem perda de vigor ao longo da ópera, brilhantemente secundado pelo Leporello de Luca Pisaroni. Também demonstraram qualidades o Masetto de Alessio Arduini e o Comendador de Tomasz Konieczny, enquanto o Don Ottavio de Andrew Staples, embora dotado da agilidade requerida pelo papel, incomoda pela característica anasalada do timbre. Juventude e físico esbelto parecem ter pesado na escolha do elenco tanto quanto as características vocais, e tal equilíbrio se fez notar tanto na Zerlina de Nafornita, quanto na Elvira de Anett Fritsch e na Donna Anna de Lenneke Ruiten. Saí da Haus für Mozart com a sensação de ter presenciado um espetáculo agradável, ainda que não inesquecível.

Dia 2 (16/08): Riccardo Muti e Fierrabras, de Schubert
Uma das efemérides celebradas pelo festival neste ano são os 25 anos de morte do maestro Herbert von Karajan (1908-1989), ilustre filho da cidade que, no pós-guerra, usou seu imenso poder e prestígio para turbinar o evento, conferindo a visibilidade internacional de que disfruta até hoje.

Para festejar Karajan, poucas batutas parecem mais adequadas do que a de Riccardo Muti, um de seus “filhos espirituais”. Convidado pelo Generalmusikdirektor da Europa para reger em Salzburgo pela primeira vez em 1971, Muti comandou a Filarmônica de Viena na Quarta sinfonia de Schubert e na Sexta de Brucker – cuja integral sinfônica está sendo executada nesta edição do festival, por diversas orquestras.


Riccardo Muti à frente da Filarmônica de Viena, em Salzburg [foto: divulgação/Silvia Lelli]

Aos 73 anos, o atual titular da Sinfônica de Chicago mantém a elegância e a energia que sempre foram suas marcas registradas. Nos músicos da Filarmônica de Viena, ele sabe encontrar parceiros musicais ideais; não precisa regê-los o tempo todo, encontrando a justa medida entre deixá-los tocar livremente e intervir na hora certa. Estilisticamente, Muti assinalou de modo quase didático a diferença entre as texturas transparentes de Schubert e o hierático mundo sonoro de Bruckner. Quem assistisse ao concerto de olhos fechados diria que se tratava de duas orquestras, cada uma para uma sinfonia. Sentado na plateia do Grosses Festspielhaus, Plácido Domingo (que devo ouvir segunda-feira, em Il trovatore) aplaudiu.

À noite, foi a vez de ir à Haus für Mozart, para mais Schubert. Dessa vez, o festival nos deu a rara chance de ver a encenação de uma de suas óperas, Fierrabras. O programa explicava se tratar de um tributo ao regente italiano Claudio Abbado (1933-2014), falecido em janeiro deste ano, e especial advogado da produção para o palco do autor de A truta.

Uma obra negligenciada precisa ser defendida com ainda mais paixão do que uma consagrada, e esse foi o principal mérito do regente Ingo Metzmacher, concentrado, atento, elétrico e eletrizante, sempre empenhado em dar relevo à cativante linguagem harmônica da criação de Schubert.

O diretor cênico Peter Stein teve o mérito de não querer “reler” uma obra que pouco foi lida até hoje, concentrando-se em simplesmente contar a história desse embate entre mouros e cristãos nos tempos de Carlos Magno, com algumas soluções engenhosas, como a parede de uma torre que ele “apagava” e “acendia” a seu bel-prazer, revelando ou ocultando seus integrantes de acordo com a necessidade da trama.


Cena da montagem de Stein e Metzmacher para Fierrabras [foto: divulgação/Monika Rittershaus]

O elenco manteve os padrões de equilíbrio e solidez que se esperam em Salzburgo, com destaque para a soprano Dorothea Röschmann, que incendeia a ópera a partir da aparição de sua personagem, Florinda, no segundo ato. Julia Kleiter e Benjamin Bernheim fizeram convincentes caracterizações do par romântico Emma/Eginhard, enquanto Michael Schade procurou emprestar dignidade ao personagem-título – um protagonista problemático do ponto de visto teatral, já que, logo no começo da ópera é excluído de qualquer possibilidade amorosa, e não aparece no palco durante o segundo dos três atos do espetáculo.

Alternando números musicais, melodramas e diálogos falados, Fierrabras, escrita em 1823, jamais foi encenada durante a vida do compositor. Ao longo do século XX, foram feitos alguns esforços de resgate da ópera – dentre os quais, o mais notável foi o de Abbado, em 1988. Como linguagem melódica, orquestração e harmonia, Schubert enche a partitura de momentos notáveis: um dos meus favoritos é o duo (com solos de clarinete) Der Abend sinkt auf stiller Flur, do primeiro ato. Mas há muitos outros.

O problema é o libreto de Josef Kupelwieser, inábil no manejo das inúmeras intrigas que se propõe a levar ao palco, e carente de noções de tempo dramático. Assim, ver Fierrabras em Salzburgo foi um prazer – mas é difícil imaginar que a ópera possa funcionar sem as excepcionais condições de excelência oferecidas pelo festival.

Dia 3 (17/08): Piotr Beczala
Se levarmos em conta que Juan Diego Flórez canta um repertório mais leve, e Jonas Kaufmann um mais pesado, talvez não haja exagero em considerar o polonês Piotr Beczala, 47, o principal tenor lírico da atualidade. Desde que a pianista Kristin Okerlund atacou as primeiras notas de Im wunderschönen Monat Mai, ficou claro que a Haus für Mozart seria palco de uma apresentação para lá de especial.

Qualquer um que tivesse o timbre puro e rico em harmônicos de Beczala estaria desculpado por se enamorar da própria voz, fazendo-a ressoar pelo simples prazer de possuir e dominar um instrumento tão raro. Não é o caso, porém, do tenor polonês, que, na primeira parte do programa, colocou a riqueza de cores e matizes de sua vocalidade a serviço da investigação das complexas e matizadas paixões do ciclo Dichterliebe, de Schumann.


Piotr Beczala cantou acompanhado pela pianista Kristin Okerlund [foto: divulgação/Marco Borrelli]

Por vezes, tendo que preencher um teatro de dois mil lugares, e lutando contra uma orquestra de cem integrantes, um cantor, em uma encenação operística, não pode se permitir grandes sutilezas. O recital, por outro lado, é a ocasião perfeita para isso. Em que outra oportunidade Beczala poderia sussurrar as intimidades de Ich hab' im Traum geweinet?

Para a segunda parte, o tenor reservou as “especialidades da casa”, com blocos de três compositores eslavos: seu compatriota Mieczyslaw Karlowicz (1876-1909), cujo talento foi tragicamente cortado por uma escalada ao monte Tatra, além do russo Sergei Rachmaninov (1873-1943) e do tcheco Antonín Dvorák (1841-1904). Beczala se mostrou plenamente à vontade no universo estético dos três autores, e devo confessar que me levou à beira das lágrimas com Nie poi, krassávitsa, pri mnie, de Rachmaninov, a partir de poema de Púchkin.

O bis começou com repertório italiano: Core'n grato, de Cardillo, na qual ele driblou com charme e simpatia um lapso de memória relativo ao texto, e a Mattinata, de Leoncavallo. Depois veio Richard Strauss: Ich liebe dich e Zueignung – e foi a vez dos austríacos e germânicos da plateia se debulharem em prantos. Era a quarta apresentação a que eu assistia na edição deste ano do festival – e a primeira em que a plateia aplaudia de pé.

Anna Netrebko estava lá, batendo palmas calorosamente. Jantando no restaurante Triangel, depois da apresentação, a poucas mesas do diretor cênico Jürgen Flimm, e de Alexander Pereira, diretor artístico do festival, fiquei sabendo por um amigo bem informado que, quando for ouvir a diva russa em Il trovatore, de Verdi, não será ao lado de Plácido Domingo. Alegando infecção e febre alta, o ex-tenor e atual barítono cancelou sua participação no festival, e será substituído pelo polonês Artur Rucinski. Vamos ver no que isso dá.

[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 2]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 3]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 4]
[Leia Diário de Salzburgo 2014 – Parte 5]

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento.]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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