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O "Parsifal" no Festival de Bayreuth (29/9/2008)
Por Klaus Billand

Após apenas quatro anos saiu de cartaz a controvertida encenação de Parsifal de Christoph Schlingensief, diretor que realizou o Navio Fantasma do Festival Amazonas de Ópera, em Manaus, em 2007. E como tantas vezes ocorre, foi no ano passado que essa montagem alcançou a sua mais alta qualidade. Como, seguindo a tradição de décadas, a derradeira obra de Wagner deve estar permanentemente na temporada, o jovem norueguês Stefan Herheim foi convidado para conceber uma nova montagem. As credencias que legitimaram a escolha deste talentoso e criativo diretor de ópera foram produções pouco convencionais de títulos como, entre outros, Tannhäuser, Così fan tutte e Rheingold.

O conceito do Parsifal de Schlingensief apoiava-se em um intenso teatro de associações dentro de uma estética multicultural e a partir de uma perspectiva pessoal, e abria, a partir disso, um emaranhado universo de associações praticamente ilimitado. Herheim, que também não aborda o enredo de forma convencional, persegue, por outro lado, três claras linhas de ação, que são bem definidas mas que, por meio de hábeis recursos dramatúrgicos, são tão intimamente entrelaçadas, que também elas oferecem ao público um amplo campo de associações. Ao contrário de Schlingensief, contudo, com Herheim estamos sempre sobre terra firme. E essa terra é a da história da recepção de Parsifal desde a sua estréia em 1882, no Festival de Bayreuth. Partindo da catedral de Siena, o imponente cenário da primeira encenação, passando pelo interior e diante da fachada da Villa Wahnfried em Bayreuth [1], vivenciamos, em uma desconcertante viagem pelo tempo através da história, a busca coletiva de identidade do povo alemão - na qual o gral funciona como um símbolo de redenção -, que tantas vezes foi associada com a recepção da obra de Wagner na colina verde [2]. Passando pelos cavaleiros do gral em figurinos de época do wilhelminismo, pelo recrutamento ingênuo-entusiástico para a Primeira Grande Guerra e pela destruição de Wahnfried no bojo do terror nazista da Segunda Grande Guerra, Herheim e seu dramaturgo Alexander Meier-Dörzenbach - utilizando-se dos impressionantes cenários de Heike Scheele e dos criativos figurinos de Gesine Völlm -, nos levam de modo inesperado mas decidido ao parlamento da antiga república de Bonn. Aqui eles colocam o público diante de um espelho, no sentido de um sensibilização global - o público no teatro olha para o teatro e tem que então ele mesmo decidir sobre o seu destino. Nesta viagem pelo tempo, realiza-se a busca individual de identidade do menino Parsifal e seu desenvolvimento para um homem maduro, em um ambiente de sonho-pesadelo, por meio de uma intensa vivência e experiência no campo de tensões de um mundo adulto de poder e violência. Nisso, a produção se utiliza de modo muito hábil de abstrações psicológicas e mitológicas, assim como de uma direção de ator muito cuidadosa, retirando sua força também de uma espacialização da partitura raramente vista.

Kwangchul Youn é um grande Gurnemanz, um baixo de voz sonora e timbre aveludado. Christopher Ventris dá credibilidade ao processo de amadurecimento de Parsifal, deixa contudo a desejar um pouco nos timbres de tenor. Detlef Roth é um Amfortas de sofrimento impressionante, já Thomas Jesatko um Klingsor um pouco muito leve. Mihoko Fujimura, tanto do ponto de vista visual quanto vocal, não é exatamente aquilo o que se espera de Kundry, mas se esforça. E aqui vale lembrar ainda a boa performance do brasileiro Diógenes Randes no pequeno papel de Titurel.

O italiano Daniele Gati, estreante em Bayreuth, faz a orquestra do Festival tocar a partitura do Parsifal como uma veneração, com andamentos lentos, de vez em quando quase que muito estendidos. Considerando a densidade dramatúrgica do que se passa sobre o palco, o recolhimento da dinâmica a uma profundidade mística não pareceu, contudo, uma escolha equivocada.

Após os Mestres Cantores na direção de Katharina Wagner, Bayreuth ganhou a sua segunda encenação que se volta para a história da recepção de uma obra na colina verde, ainda que a partir de uma perspectiva bem diferente...

[1] antiga residência de Richard Wagner
[2] "colina verde" é a colina em Bayreuth, sobre a qual se situa o teatro do festival





Klaus Billand - é alemão e jornalista da revista de ópera "Der Neue Merker", de Viena (www.der-neue-merker.eu)

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