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Luís Otávio Santos: o frescor de Mozart e Beethoven em Juiz de Fora (13/3/2015)
Por Irineu Franco Perpetuo

Tenho idade suficiente para me lembrar de quando os brasileiros que se dedicavam à música antiga eram visto por seus pares, por aqui, com um misto de desprezo e condescendência. Se vinha um grupo estrangeiro tocando pelos cânones dessa escola, era aceito e até aplaudido. Porém, na hora de interpretar o repertório anterior ao Romantismo, fosse no canto ou no violino, todo mundo por aqui só queria saber de “caprichar” no vibrato e berrar como se não houvesse amanhã – a diferença entre Bach e Mahler se fazia notar, se tanto, na duração das obras...

Hoje em dia, quando se toca no Brasil uma sinfonia de Mozart ou Beethoven (já que Haydn ninguém programa mesmo), ainda é praxe lotar o palco com um contingente de músicos equivalente à população de Viena naquele período – para não falar nas decisões de tempo, articulação, arcadas etc, que parecem ecoar LPs da década de 1950.

Porém, em 2013, quando Rinaldo Alessandrini regeu a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e o Coral Paulistano no Réquiem de Mozart, foi possível ver que músicos “tradicionais” brasileiros eram capazes e disponíveis para, se adequadamente orientados, realizar uma interpretação “historicamente informada” de partituras do século XVIII. E há registros em CD a demonstrar que nossos músicos “de época” podem eventualmente atingir culminâncias dignas de seus pares europeus.

A expressão “divisor de águas” me parece até modesta quando aplicada à revolução que o violinista e regente Luís Otávio Santos realizou nos CDs do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora (MG). O diletantismo heroico e bem-intencionado, porém de resultados para lá de precários, que reinava antes dele foi substituído, a partir do ano 2000, pelo mais sólido profissionalismo.


Luís Otávio Santos se prepara para apresentação no Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora [foto: divulgação]

Como resultado, discos que antes se ouviam com uma mescla de benevolência e temor passaram a se prestar a audições prazerosas e destemidas. Não há exagero em ver no mais recente CD, o do 25º festival, gravado no ano passado, um ponto culminante dessa trajetória ascendente de qualidade.

Além de contemplar o repertório luso-brasileiro com um bem-vindo registro da abertura da ópera Zaíra, de Bernardo de Souza Queiroz (1765-1837), Santos e seus comandados enfrentam duas obras primas do Classicismo: a Sinfonia nº 40, de Mozart, e a Primeira sinfonia de Beethoven. Em vez de amedrontar, a força do cânone estimula os instrumentistas, cujo vigor e frescor anima cada página das partituras – e cada segundo da audição. Neste ano, pelo que consta, tem mais Beethoven, com a Terceira sinfonia. Por tudo que Luís Otávio fez até agora, temos direito a esperar um disco não menos do que excelente.

[O novo CD da Orquestra Barroca do Festival de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora está disponível na Loja CLÁSSICOS]

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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