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Dois belos programas em São Paulo (13/9/2016)
Por Jorge Coli

Que dois belos programas neste último fim de semana, em São Paulo!
Primeiro, um concerto francês, ou quase, no Theatro São Pedro, ao qual assisti na sexta-feira: um esplendor, pela beleza das músicas e pela qualidade da interpretação.

A orquestra soava divinamente “francesa”, transparente, leve, com o espírito mais preciso e delicado que se possa imaginar. O jovem maestro Flávio Lago mostrou-se capaz não apenas de domínio, mas do entendimento profundo das obras.

Começou com o Prélude à l’aprés midi d’um faune, (Prelúdio para a tarde de um fauno), de Debussy, perfeito no andamento, sutil na dosagem das madeiras e das cordas; que orquestra, que maestro!

Em seguida, o Poème de l’amour et de la mer (Poema do amor e do mar), de Ernest Chausson, grande obra-prima. O texto é do poeta simbolista Maurice Bouchor. Abre-se com evocação do perfume dos lilases, para se ampliar com a paisagem marinha sob o sol: imediatamente, neste início, graças à interpretação de Marly Montoni, estávamos no perfeito espírito de fusão entre a poesia e a música. Marly Montoni é uma cantora de dotes excepcionais, belíssimo timbre e poderosa sensibilidade. Um pequeno cuidado de sua parte com a articulação das sílabas, com o colorido preciso das vogais, com o destaque das consoantes permitiria que se compreendesse melhor o texto (que vinha acompanhado de tradução no letreiro): é um pequeno progresso a fazer. Mas esta observação não diminui em nada a intensa emoção que foi ouvi-la numa perfeita fusão com a música.

Rosana Lamosa é a grande artista que todos conhecem. Ela assumiu, em seguida, a interpretação de Shehérazade, de Maurice Ravel. Estamos em pleno “convite à viagem”, no sentido de Baudelaire: viagem nostálgica, imaginária, jamais realizada, feita de fantasias e desejos. Ravel empregou o poema decadentista de Tristan Klingsor para tecer esta obra, estreada em 1903. Declamação livre, à maneira de Pelléas, é inserida numa paisagem sonora a mais rutilante, variada como um caleidoscópio, de perfeição meticulosa, como sempre nas composições de Ravel. Orquestra e maestro, mais uma vez, foram maravilhosos.

A terceira obra, estreia mundial, não foi francesa. Belo exemplo do estímulo que a direção artística do São Pedro oferece a seus músicos. O autor é Jackson Lúcio, trompista da orquestra. Em meio a joias tão preciosas de gênios universais como Chausson, Debussy ou Ravel, era um risco. O título assustava um pouco: Sonho interminável. Interminável é palavra arriscada no título de obra musical; ela traz a conotação do tédio, da torcida para que a tortura termine logo! (Isso me lembrou da piadinha em que o professor do conservatório pergunta para o aluno sobre as sinfonias de Schubert, e ele responde: “Compôs duas, professor: a Inacabada e a Interminável!”).

Os receios, porém, logo foram embora. A obra se aparenta ao mundo transparente dos franceses, de Ravel por exemplo, porém com um colorido caloroso na orquestra, tons tropicais. Linda composição, sobre um texto, é verdade, um pouco ingênuo. Mas quantas partituras admiráveis já foram realizadas sobre poemas pouco expressivos? A obra de Jackson Lúcio é excelente, esperemos que ela seja retomada em programas futuros. Foi Rosana Lamosa quem deu a honra, ao compositor, de assumir o solo.

Ela também encerrou a noite com a La damoiselle élue (A donzela eleita), de Claude Debussy. Obra de juventude, estreada em 1893, foi sua primeira composição orquestral apresentada em público. É habitada pelo frescor da juventude. Tenho-a no coração e na memória graças à insuperável gravação de Bidu Sayão e Ormandy (Bidu Sayão estreou em 1936, no Carnegie Hall, sob a regência de Toscanini com essa composição). Não é frequente nas salas concerto, vá saber por quê! – nesta minha longa vida gastando fundilhos nos assentos dos teatros e salas de concertos, foi a primeira vez que pude ouvi-la ao vivo.

O poema é de Dante Gabriele Rossetti, pintor pré-rafaelita inglês, com o espírito ao mesmo tempo angelical, e suavemente erótico daquele movimento: “um pequeno oratório numa nota mística meio pagã”, escreveu o Debussy. Exige soprano (no São Pedro, Rosana Lamosa), meio-soprano (Catarina Taíra) e coro feminino (Coro da cidade de Santo André). Foi um enlevo e um triunfo. A ideia de dispor o coro de cada lado do balcão inundava a sala de sonoridades etéreas, misturando-se com os solos e a orquestra. De sair com a alma flutuando.

***

O segundo programa foi, sábado, no Municipal: a primeira sinfonia de Mahler, chamada Titã. Foi posta em balé por Stefano Poda, diretor italiano conhecido do público de São Paulo por sua montagem de Thais, de Massenet.

Há sempre um risco em coreografar obras musicais que foram feitas para serem apenas ouvidas. Mas a música de Mahler é tão cinematográfica, com montagens de situações sonoras tão diversas, com efeitos narrativos, com colagens, num espírito “destinado a provocar o espanto” como escreveu o próprio Mahler, que ela parece solicitar visualidade. A sinfonia Titã foi, por sinal, tomada como um poema sinfônico em sua estreia. E, pelo menos desde Morte em Veneza de Visconti que sabemos como ela pode ser excelente para apoiar cenas poéticas, melancólicas, ou dramáticas. Por sinal, o célebre Adagietto da Quinta sinfonia, que aquele filme popularizou tanto, foi enxertado como prelúdio ao balé.

Apesar das análises de Adorno, a obra tem de fato espírito positivo, por vezes delicado, por vezes enérgico, e não lhe falta humor. Stefano Poda foi à contracorrente desse clima. Criou um cenário em que um muro branco, recortado por alvéolos quadrados – como carneiras num ossuário – servia de limite, com uma abertura central. Podia fazer pensar em cemitério, ou talvez na arquitetura metafísica de Guerrini e Piacentini. No alto pairava um poliedro transparente – de significação obscura. No chão, a areia abundante, como num deserto.

De início, a fusão entre o espetáculo e a música me pareceu difícil: o Adagietto da Quinta sobrepunha-se com sua poderosa poesia à longa cena entre uma mulher e uma menina. Mas, aos poucos, quando corpos se levantavam de dentro do areal, a integração se fez. A partir do terceiro movimento, o poder do espetáculo se afirmou plenamente.

Poda concebeu uma humanidade de zumbis dementes, áspera, sem trégua, monstruosos como gárgulas, renovando conflitos, impondo exclusões, dilacerando-se, cheios de energia brutal incansável. Vestidos de calça e paletó cinza, recobertos pela areia, sugavam a energia da música, desmentindo tudo o que ela pudesse ter de positivo. Alguns bizantinismos não comprometeram em nada o espetáculo.

Foi impressionante o extraordinário trabalho dos bailarinos que integram o Balé da Cidade de São Paulo. Eles são de fato sensacionais, e tiveram, com este Titã, uma concepção coreográfica e cênica à altura de suas capacidades técnicas e de seus talentos. Magnífico.

Eduardo Strausser regeu poderosamente a obra de Mahler: foi um regalo ouvi-lo, em frente de uma Orquestra Sinfônica Municipal em forma estonteante. Pulso, fraseado, brilho equilibrado dos timbres, coerência na concepção dinâmica: maestro e orquestra deram um Mahler de primeira classe.


Cena de “Titã”, coreografia apresentada pelo Balé da Cidade de São Paulo [Foto: divulgação]





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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