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Ópera no cinema: bom, mas muito caro (16/2/2009)
Por Irineu Franco Perpetuo

Almocei tarde, chovia a cântaros, tinha clássico no Morumbi, e o shopping estava previsível e insuportavelmente lotado. Mesmo assim, nesse domingo, dia 15, armei-me de coragem e fui ao Frei Caneca Unibanco Artplex para ver a primeira das transmissões de ópera do Metropolitan de Nova York para São Paulo.

A sala, de 125 lugares, estava lotada, oferecendo a este retardatário a difícil escolha entre sentar no chão ou ir para a primeiríssima fila. Preferi o gargarejo, e não me arrependi: mesmo com a cara colada na tela, a qualidade da imagem da transmissão é superlativa.

Claro que a ópera no cinema nunca vai substituir o aqui e agora das montagens ao vivo –mesmo levando em conta a paupérrima qualidade dos cantores que se têm apresentado na capital paulistana ultimamente.

As transmissões não servem para concorrer, mas sim para estimular o espetáculo ao vivo. E esse Orfeu e Eurídice, de Gluck, foi um belo estímulo, com uma concepção de filmagem que transcende a mera documentação estática da performance – há travellings, closes e tomadas feitas a partir dos bastidores que fornecem uma perspectiva da montagem como seria impossível de experimentar ao vivo.

No aspecto artístico, devo me confessar favoravelmente surpreso em dois pontos. O primeiro é que, sendo um entusiasta da escola de instrumentos “de época”, devo reconhecer que James Levine é um mestre consumado do teatro, e que, mesmo com orquestra e coros “grandes” e “modernos”, conseguiu uma leitura matizada, cheia de contrastes, e marcada por tempos ágeis.

O segundo foi a encenação de Mark Morris, colorida, alegre e com uma incorporação dinâmica da coreografia e da dança ao espetáculo. Os DVDs do Metropolitan que por aí circulam trazem montagens museológicas e fossilizadas. Foi bom ver que a casa, de quando em vez, pode tirar a poeira do conservadorismo “kitsch” e se abrir para concepções mais modernas.

Já o elenco não chegou a me convencer plenamente. Não sei se a culpa era de suas características como cantora, ou do posicionamento do microfone, mas o fato é que eu ouvi muito mais os graves do que os agudos do Orfeu de uma Stephanie Blythe, em outros aspectos, digna de elogio pelo legato, pelo comando do fraseado e pelo senso de estilo. Danielle de Niese é uma Eurídice cuja beleza física avassaladora quase faz esquecer os exageros da caracterização, enquanto Heidi Grant Murphy é um Amore excessivamente amaneirado, em que os trejeitos “cômicos” prejudicam a qualidade da emissão e da linha vocal.

Mesmo assim, a experiência foi bastante agradável, e me deixou com vontade de ver as próximas transmissões do Met para cá. Só o que tende a refrear essa vontade é o preço excessivamente alto do ingresso. R$ 30, francamente, me parece um valor abusivo: é mais do que tem se pagado para ver os espetáculos ao vivo no Municipal de São Paulo. Quem pode falar em “popularização” da ópera cobrando o bilhete de cinema mais caro da cidade?





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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