Campos do Jordão: grandes concertos, batutas em crise

Neste ano, não foi preciso enfrentar o novo-riquismo esnobe de Campos do Jordão para testemunhar a elevada qualidade do Festival Internacional de Inverno. Vários de seus concertos aconteceram na Sala São Paulo, trazendo à capital uma programação imaginativa e variada.

Já comentei aqui a histórica estreia do duo Maria João Pires-Antonio Meneses. Vale a pena destacar, ainda, o altíssimo nível da Akademie für Alte Musik, de Berlim, bem como o interessantíssimo concerto de música contemporânea dirigido por Eduardo Leandro, em que bolsistas de percussão do festival realizaram uma leitura excepcional de Peaux, de Xenakis, e uma caprichada orquestra de professores do evento emoldurou uma leitura fulgurante do concerto para piano de Ligeti, no qual brilhou, como solista, o talento amadurecido de Paulo Álvares, demonstrando completo domínio técnico e da linguagem do autor.

O que não era possível prever era que o festival servisse, ainda, para expor de maneira mais candente a crise que os músicos das principais orquestras paulistanas vivem com seus regentes. Tem sido impossível conversar com integrantes da Osesp e da Sinfônica Municipal e não ouvir queixas envolvendo Yan Pascal Tortelier e Rodrigo de Carvalho.


Yan Pascal Tortelier e Rodrigo de Carvalho [Fotos: divulgação]

A Osesp, é bom que se diga, não vive mais os tempos de paranoia orwelliana, em que a ameça de degola pairava sobre cada membro da orquestra que ousasse discordar de seus rumos. Os músicos têm utilizado a recém-adquirida liberdade de expressão para manifestar de maneira pública (e até em redes sociais como o Facebook) a vontade de mudança por lá. Ao que parece, Tortelier era visto como a melhor das soluções provisórias, mas está bem longe de constituir o nome dos sonhos dos musicistas para construir a nova ordem pós-Neschling.

No Municipal, os ânimos parecem ainda mais acirrados. Toda insatisfação de uma orquestra que era tida como a segunda do Brasil, mas que vem sendo paulatinamente desprestigiada e desvalorizada nos últimos anos, explodiu no colo de Rodrigo de Carvalho.

Por estarem em situação trabalhista mais precária que seus colegas da Osesp, os integrantes da Sinfônica Municipal são bem mais cautelosos; eles temem retaliações, como o cancelamento de seus contratos e até a extinção da orquestra. Contudo, em conversas reservadas, a impressão que os músicos passam é de que não há mais nada que Carvalho possa fazer para mudar a situação: a má vontade para com ele é generalizada.

Pois a difícil arte da regência não é um ofício puramente musical: para além do aspecto artístico, envolve não poucas questões políticas, tanto da grande política - a relação com gestores culturais, secretários de cultura, etc -, quanto da pequena política do dia-a-dia - o trato com os subordinados e colegas de trabalho.

Se as grandes orquestras paulistanas fossem clubes de futebol, dir-se-ia que seus regentes estão “prestigiados”. E quem acompanha o mundo da bola sabe que, se, por um lado, uma sequência de bons resultados pode salvar o emprego de um treinador que está com a corda no pescoço, por outro, quando a relação com os jogadores está desgastada, mesmo técnicos que já venceram a Copa do Mundo acabam perdendo os cargos. É esperar para ver.