Falta diálogo

por João Marcos Coelho 30/10/2013

Instituição-símbolo da vida musical europeia, dominante desde seu surgimento, em meados do século XVIII, a orquestra sinfônica acaba, de certo modo, contribuindo para um certo conservadorismo no dia-a-dia. É uma tendência geral, claro. Associada mais recentemente à crise financeira que está balançando o Velho Continente e também o até há pouco otimista mercado orquestral norte-americano, a tendência fortalece a filosofia de só apostar no certo, em termos de repertório. Esse engessamento é resultado de uma instituição que tende a contemplar quase sempre o seu próprio umbigo e funcionar em mão única, de cima para baixo. A consequência é seus dirigentes considerarem que aos outros – e aí se incluem o público, a sociedade inteira – é que devem rezar pela cartilha da instituição. Os ciclos de crescimento viram espasmos, até a próxima crise, e não a regra, o dia-a-dia.

Em entrevista recente a Ivan Hewitt, do jornal inglês The Daily Telegraph, o maestro húngaro Iván Fischer pôs o dedo na ferida. Fischer, vocês sabem, fundou 30 anos atrás a Budapest Festival Orchestra e operou um autêntico milagre: colocou-a entre as dez mais reluzentes do planeta, numa pesquisa feita com críticos internacionais há pouco tempo.

A frase que mais me chamou a atenção foi esta: “Vivemos uma estranha situação, em que de um lado os grupos historicamente informados viraram donos da música antiga, digamos até Mozart. E de outro, temos os grupos de música nova que só tocam este repertório. As orquestras convencionais consideram que o seu repertório está diminuindo a olhos vistos. No futuro, a orquestra terá de pensar diferente – não dá para trabalhar sempre com a formação rígida de cem músicos”.


Maestro Iván Fischer: "A orquestra terá de pensar diferente" [foto: divulgação]

Ele está coberto de razão. Só que, em geral, nossas orquestras ainda não se deram conta disso. E não fazem nada. Não olham sequer para o exemplo de Simon Rattle, que em vinte anos à frente da orquestra de Birmingham criou vários grupos estáveis dentro da estrutura da orquestra como instituição, dedicados aos vários segmentos da vida musical. É claro. Uma orquestra deve funcionar como uma usina onde se produz todo tipo de música. É natural manter grupos estáveis dedicados a esses segmentos (de música antiga, música contemporânea, compositor residente por uma ou mais temporadas, estúdio de ópera etc.). Apenas dessa maneira ela irá justificar sua existência e os altos custos que o Estado investe em sua manutenção.

Vejam só o que Fischer sugere. Estimular a criatividade dos músicos é limitar o número de semanas por temporada em que eles trabalham com a orquestra. Assim, eles poderão tocar seus próprios projetos, sempre dentro da instituição. A receita é simples. Fischer sugere que se ouçam os músicos um a um, para “descobrir as paixões de cada um”. Se um adora música antiga, abrir espaço para que ele organize um concerto; o mesmo vale para a música contemporânea.

Enfim, um diálogo, e não um monólogo de cima para baixo, como em geral acontece com as nossas orquestras. Quando os dirigentes são profissionais e empenhados, muitas vezes acerta-se. Mesmo assim, não há diálogo. Que tal ouvir os músicos de nossas orquestras, perguntar-lhes questões básicas: consideram poucos ou excessivos os ensaios para cada programa? Eu poderia elencar ao menos mais umas vinte ou trinta perguntas fundamentais para que o monólogo se transforme em diálogo – e assim se dê um salto qualitativo e de compromisso de cada músico com a instituição – e vice-versa, numa saudável via de mão dupla.

Por aqui, cada dirigente tem seu projeto. Jamais olha para o lado. Para baixo, então, nem pensar. Manda-se. Aos músicos, cabe obedecer. Até quando?

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