“O Morcego”: um Strauss mais longo que Wagner

Quando você sai de uma récita de O Morcego, de Johann Strauss II, com a impressão de que o espetáculo foi mais comprido do que A Valquíria, de Richard Wagner, que viu no mês anterior, é sinal de que tem algo de errado com a produção de opereta.

De cara já devo dizer que não desaprovei a transposição “contemporânea” da ação feita por William Pereira, nem me choquei com o cabaré GLS em que o palco do Municipal se converteu no segundo ato – para o meu gosto, o nightclub tinha uma linguagem muito mais consistente do ponto de vista plástico e estético que o “kitsch” pavoroso do apartamento “moderno” do primeiro ato. Também devo confessar que não torci o nariz para a versão em português – se nem assim a gente consegue entender todo o texto, e tem que recorrer às legendas, o problema se deve à dicção de alguns cantores.

A questão principal, para mim, é que a adaptação deveria ter mirado não apenas o conteúdo dos diálogos, mas também sua extensão. Cantores líricos não são atores de teatro de prosa. Se constrangidos a dizer longas falas, acabam descambando para a canastrice mais deslavada, empilhando clichês que ficam no limiar da vergonha alheia. Com esse tipo de decisão, em vez de valorizar as qualidades dos cantores, a direção do espetáculo acabou expondo suas limitações.

Tampouco me escandalizei com o “Morcego Mix”, o bem humorado “pot-pourri” em que o arranjador Miguel Briamonte brinca, com inteligência, com diversos estilos, da ópera à MPB, passando pelo musical. Uma piada musical como essa é muito mais efetiva do que todas as tiradas supostamente espirituosas do texto em prosa...

Graças à utilização dos microfones, o maestro Abel Rocha – que conduziu com verve uma Orquestra Sinfônica Municipal em boa performance – aproximou O Morcego do musical, e os cantores familiarizados com esse universo acabaram se destacando. Caso de Leonardo Neiva (Falke) e Carla Cottini (Ida), cujos desempenhos podem ser considerados referenciais estilísticos para esse tipo de espetáculo.

Dentre os cantores com uma abordagem lírica mais, digamos, “tradicional”, seria injusto fazer qualquer distinção entre o desempenho igualmente sólido de Fernando Portari (Eisenstein), Inácio de Nonno (Frank) e Edna d’Oliveira (Adele). Mas acho que vale destacar o surpreendente – pelo menos para mim – talento histriônico de Rubens Medina (Alfred), que me arrancou sonoras gargalhada.

Só não consegui gostar do Orlofsky de uma Regina Elena Mesquita tão enrolada em um sotaque russo fake que se prejudicou na emissão e na linha do canto. E na noite de estreia, no dia 9, lamentei profundamente o fiasco de Rosana Lamosa nas csárdás do segundo ato – uma espécie de equivalente vocal do pênalti desperdiçado por Elano na Copa América deste ano –, que arruinou uma atuação que, até então, vinha no mesmo nível dos colegas.

Devo confessar que o falatório me cansou tanto que quase não voltei para o terceiro ato do espetáculo. Não lamentei tê-lo feito, mas a sensação, ao final, era antes de alívio que de júbilo. O que talvez sirva como metáfora para a temporada 2011 do Municipal: causou alívio ver a casa cumprindo o que prometeu, fazendo as óperas agendadas e não dando vexame algum. Mas ainda está aquém do teatro que a cidade necessita e merece.