Osesp, seus músicos e a busca por um regente

por Leonardo Martinelli 30/06/2010

Junho foi um mês especial para quem frequentou os concertos da Osesp. Claro, as apresentações da famosa orquestra paulista são, há tempos, garantia de boa música. Mas neste mês que se encerra os frequentadores da Sala São Paulo foram agraciados com uma sequência de concertos excepcionais, seja pelo repertório em questão, seja pela atuação dos regentes convidados.

Essa verdadeira epifania orquestral iniciou-se com a explosiva apresentação do jovem regente Kristjan Järvi, num programa que incluía Haydn e Bernstein, mas cuja a grande atração era a Sagração da Primavera, de Stravinsky. Por conta da matéria que está publicada na edição de julho da Revista CONCERTO, tive a oportunidade (que depois se revelou num verdadeiro privilégio) de assistir a alguns ensaios e a todas as récitas conduzidas por Järvi. Catarse é a palavra que melhor define a passagem do furacão Järvi pela Rua Mauá. Com pleno domínio da complexa obra de Stravinsky, Järvi deitou e rolou, imprimindo uma interpretação excitante, acelerando nos trechos mais vertiginosos, ao mesmo tempo em que transmitia à orquestra uma rara sensação de segurança, realizando ensaios bem planejados, eficientes e agradáveis (sua gentileza no trato pessoal com os músicos é notável).

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo [Foto: divulgação]

Superar aquilo que nosso colega de redação Irineu Franco Perpetuo definiu como “um dos melhores concertos da história da Osesp” (opinião com a qual também faço coro) talvez seja difícil, ou mesmo impossível nos mesmos termos que Järvi o fez. Porém, isso não impediu que duas semanas depois a Osesp voltasse a nos deslumbrar com uma excelente apresentação da Sinfonia nº 6 de Mahler.

Sob a regência de Thomas Dausgaard, a orquestra enveredou com bravura por meio das espessas sendas sonoras dessa monumental partitura de Mahler, e mesmo com poucos ensaios (tal como relatado por diversos músicos) creio que realizaram sua melhor apresentação dessa sinfonia. Se com Järvi a Osesp já havia feito a melhor Sagração de sua história (opinião expressa por vários veteranos do grupo) eis que ela se supera em outra difícil obra, tal como um tri-atleta, que vai quebrando diferentes recordes em diferentes categorias.

Por fim, o mês se encerrou com a participação do maestro brasileiro Celso Antunes (nosso entrevistado de edição de junho) com o Stabat Mater de Dvorák. Apesar de não ter o potencial explosivo que as obras de Stravinsky e Mahler encerram, essa obra sacra de Dvorák não deixa de ser uma verdadeira joia, na qual orquestra, coro e solistas reúnem-se em torno de uma sonoridade ao mesmo tempo robusta e delicada. Antunes conduziu com destreza as diferentes partes envolvidas, nos revelando um terceiro tipo de sonoridade com a qual a Osesp se saiu muito bem.

Ao acompanhar praticamente todo o mês da Osesp, fica ainda mais clara a qualidade de seus músicos e o desejo deles em participar de forma ativa de seu processo de consolidação artística. Ao ouvir a orquestra sob o comando de outros regentes, fica explícito aquilo que no momento não é mais segredo para ninguém, isso é, que as atuações de Yan Pascal Tortelier, seu regente titular, não têm correspondido às possibilidades já existentes na orquestra.

Muita água há ainda de passar por debaixo da ponte antes que essa questão seja resolvida de forma definitiva. Fica-se apenas na expectativa de que seja breve e, claro, que seja alguém verdadeiramente comprometido com o grupo e que consiga desenvolver plenamente seus potenciais.