As quatro fantasias para piano e orquestra de Mignone num só CD

por João Marcos Coelho 26/11/2015

Hoje vou chamar a atenção de vocês para um CD gravado em 2010 nos Estados Unidos, contendo, pela primeira vez, as quatro fantasias para piano e orquestra de Francisco Mignone. Até esta gravação pouco conhecida da pianista portuguesa Alexandra Mascolo-David, existiam apenas registros históricos. A primeira fantasia foi gravada por Bernardo Segal e a Orquestra da NBC com Toscanini nos anos 1940. Depois, João de Souza Lima registrou as duas primeiras, com Mignone regendo a OSB (1968). Em 1979, a pianista Maria Josephina Mignone gravou a Fantasia nº 3 regida pelo marido à frente da Orquestra Nacional da Rádio MEC. E em 2002, Clelia Iruzun gravou a mesma obra em 2002 em versão reduzida para cordas, com Odaline de la Martínez regendo o grupo Lontano.

 

Ora, quando se pode ouvir as quatro juntas pela primeira vez, vê-se logo que constituem obras importantes na vasta produção de Mignone. O fato é que é inestimável a iniciativa da pianista Alexandra Mascolo-David. Ela dedicou as últimas três décadas à pesquisa da música de Mignone, um compositor inexplicavelmente pouco tocado no Brasil. No exterior, como ela acentua no texto que assina no folheto interno do CD, sua música “é ainda praticamente desconhecida”.

Quem lhe sugeriu pesquisar Mignone foi o pianista português Sequeira Costa, seu professor. Alexandra gravou, em 2001 e 2007, as 24 Valsas de Mignone, por sugestão de Maria Josephina, viúva do compositor. E, em seguida, decidiu-se por este belíssimo projeto. Nenhuma delas está editada. Alexandra trabalhou três anos nos manuscritos e na prática estabeleceu uma edição crítica.

O resultado é magnífico. O CD foi gravado para o selo White Pine Music. Alexandra é acompanhada pela Kalamazoo Symphony Orchestra, regida por Raymond Harvey. Ela mesma escreve o texto no folheto interno do CD e define bem as fantasias: “Mignone inspirou-se na tradição folclórica afro-brasileira e triunfou ao combinar melodias africanas, indígenas, folclóricas, populares, e originais suas, com a complexidade e intensidade rítmicas características dos instrumentos de percussão”.

Todas são construídas em movimento único, e giram entre os 11 e os 13 minutos cada. Funcionam como concertos para piano e orquestra condensados, incluindo cadências solísticas. As duas primeiras, acentua Alexandra, possuem caráter mais melódico, enquanto as duas últimas apresentam “uma intensa atividade rítmica (...) exploração de motivos, de ostinatos obsessivos, de acordes e clusters brutais”. A quarta, segundo Alexandra, lembra Stravinsky em vários momentos.

Uma boa ideia, sem dúvida, seria convidá-la para solar estas fantasias em concerto no Brasil em 2016.

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