Salomé da Osesp: finalmente, ópera com cantores de verdade

No Brasil, o nível dos elencos de ópera tem oscilado entre o "interessante" (com muitas aspas e boa vontade) e o irritante (sem aspas, sem afinação, sem volume). Quando aparece um time excepcional de cantores, de vozes completamente adequadas para os papéis para os quais foram escalados, a gente até estranha. E foi esse delicioso estranhamento que a Osesp causou com sua recente "Salomé", de Richard Strauss, semi-encenada na Sala São Paulo.

Semi-encenada, porque o maestro John Neschling, não contente em reger o espetáculo, ainda salpicou alguns elementos visuais, como figurinos, efeitos de luz, uma projeção da lua e o melhor achado de todos -o rebaixamento do elevador do piano, para que Jochanaan pudesse imprecar das profundezas contra as imoralidades da corte do rei Herodes.

A solução híbrida funcionou perfeitamente, e tirou o aspecto de monotonia que é o risco de toda ópera em versão de concerto. Em cima do palco, a Osesp exibiu uma sonoridade luxuriante, rica em contrastes, e com uma atenção inteligente aos clímaxes da partitura. Pena, apenas, que, encantado com os sons que vinham da sua orquestra, Neschling não tenha domado seu volume, que, por vezes, encobriu as excepcionais vozes dos solistas, penalizando especialmente Thomas Moser, um Herodes de timbre belo, emissão bem cuidada e fraseado refinado.

O excesso de volume orquestral, de qualquer forma, não chegou a roubar a magia de um espetáculo amplamente dominado pela Salomé de Susan B. Anthony, que se mostrou completamente senhora de sua parte, com grande poder de mudar o colorido da voz de acordo com as necessidades dramáticas da partitura.

Também não houve como não se encantar com o absoluto comando do palco e dignidade de Gabriele Schnaut, uma Herodíade de vocalidade uniforme e sólida, e com o imponente Jochanaan de Alan Titus, cuja maldição contra Salomé certamente ainda ressoa na memória de todos que estiveram na Sala São Paulo nesta semana.

Cantores assim a gente não ouve por aqui todo dia - infelizmente. Depois da excepcional "Salomé" - não apenas no bom sentido do alto nível, mas também no mau sentido da exceção -, vai ser bem difícil voltar à rotina dos elencos com mais boa vontade do que talento que têm sido a regra por aqui. Quem sabe um dia começam a convidar para as nossas óperas cantores que realmente dêem conta de suas partes. Ou, simplesmente, resolvam escolher títulos que tenham papéis adequados às vozes disponíveis por aqui. Enquanto não chega o momento do bom senso, haja boa vontade!


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