O Brasil como ponto de partida

por João Luiz Sampaio 01/05/2019

Pianista Celina Szrvinsk assina este mês em Belo Horizonte a direção artística do Festival de Maio e relembra trajetória múltipla associada à música brasileira

Foi em Goiânia que tudo começou. “Lá se vão cinquenta anos”, lembra a pianista Celina Srzvinsk. “Estávamos perdidos no Centro-Oeste, mas havia um meio musical efervescente e atento à música brasileira. Para você ter uma ideia, meu primeiro concurso, com 9 anos de idade, só tinha compositores nacionais.”

Se o repertório brasileiro foi decisivo na formação de Celina, é natural que pautasse algumas de suas principais realizações, como o Festival de Maio, do qual é diretora artística e que neste ano se desdobra em três módulos, dois neste mês e um em novembro, em Belo Horizonte. Ou então sua atividade como professora.

“O festival nasceu em 2012 como uma homenagem dos alunos a mim e ao Miguel Rosselini. Eles se organizaram, fizeram concertos, foi muito bonito. E eu prometi para eles que no ano seguinte faríamos alguma coisa para continuar a celebrar o ato de fazer música juntos. Em 2013, então, realizamos a primeira edição do evento, já com artistas como Antonio Meneses, que virou residente, tocando em todas as edições, e Berenice Menegale, nossa professora residente.”

O objetivo era muito claro. “Sempre ter a música brasileira em papel de destaque, celebrando compositores e intérpretes, inclusive com encomendas de obras. Os 80 anos de Berenice, por exemplo, foram marcados por três peças escritas para ela, assim como os 90 anos do barítono Eládio Perez-Gonzáles”, conta.

Nesta edição, em novembro, novas homenagens. Há os 90 anos de Ernst Mahle, o centenário de Claudio Santoro. “E algumas outras coisas que não quero contar ainda para não estragar a surpresa de quem será convidado.”

No ano passado, 153 alunos de todo o Brasil se inscreveram para participar do festival. Pergunto a ela se, de alguma forma, isso torna ainda mais amplo o interesse pela música brasileira. Ela diz que sim. “Belo Horizonte, até pelo trabalho de Berenice, sempre foi um polo de atração nesse sentido. Mas percebo que os alunos, ao tocarem a música brasileira, influenciam seus colegas, e isso vai se replicando. E a questão da encomenda, enfim, de pedir uma nova obra e ter de fato a chance de tocá-la, é algo que torna essa relação real, concreta.”

Celina diz não entender por que a música brasileira não faz parte da formação do músico brasileiro de maneira mais ampla. Ela conta que está em estado adiantado um projeto de pensar a iniciação musical por meio de compositores nacionais, usando o que ela define como “repertório didático muito bom” e já existente. Outra questão sobre a formação, ela diz, tem a ver com a música de câmara. “Todo mundo acha importante, mas ninguém busca. Eu digo sempre a meus alunos: o camerista não é o solista que deu errado.”

Celina Szrvinsk [Divulgação]
Celina Szrvinsk [Divulgação]

Necessidade

Celina divide seu tempo entre a carreira como intérprete, a atividade pedagógica e a de produtora. Não se trata apenas do Festival de Maio, mas também da série de concertos do Teatro Bradesco de Belo Horizonte, que neste ano levará à cidade artistas como os pianistas Simon Trpceski e Nelson Freire (em recital que vai celebrar seus 75 anos) e a Orquestra Filarmônica Jovem de Boston, regida por Benjamin Zander.

Também aqui, ela diz, tudo começou em Goiânia. “Eu via a D. Belkiss [Carneiro de Mendonça, pianista e professora] fazendo da cidade um espaço de eventos de música, levando para lá Arnaldo Estrella, Yara Bernette, Trio Brasileiro. Eu acompanhava aquele esforço dela e aprendia sem saber”, ela relembra. 

Quando se mudou para o Rio de Janeiro, Celina encontrou um momento especial. “Eu lembro que o [pianista] Jacques Klein estava à frente da Sala Cecília Meireles, promovia aquelas integrais, como a de Brahms, a oferta de concertos era vasta.” Mas, aos 24 anos, ela passou no concurso para dar aulas em Belo Horizonte. “Quando cheguei aqui, foi um hiato. Tínhamos um ambiente acadêmico que não se preocupava em apresentar concertos. E isso fez com que eu questionasse um pouco meu papel. Para que estamos formando pianistas? Para tocar onde?”

Ela procurou a direção da faculdade. E logo surgiria uma série com 34 concertos por ano. “Foi a primeira vez que se venderam assinaturas para uma temporada em Belo Horizonte. Lançávamos as atrações com antecedência e fomos atraindo músicos de São Paulo, do Rio de Janeiro. Essas séries, acho, não foram apenas grandes eventos, mas com o tempo ajudaram a dar oportunidades aos alunos, que conheceram professores, ganharam bolsas.” O trabalho de produtora nasceu, enfim, da pura necessidade. “Mas não parei mais e acho que construímos coisas bonitas ao longo do tempo.”


AGENDA
Festival de Maio

Dias 16  a 18 (Módulo 1) e 27 a 29 (Módulo 2) 
Teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube (Belo Horizonte/MG)