Acervo CONCERTO: A vida de Mozart

por Redação CONCERTO 24/04/2019

Texto de Leonardo Martinelli na Revista CONCERTO de janeiro de 2012

Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart. Este é o grandiloquente nome de batismo de um dos mais brilhantes músicos de que se tem notícia. Se preferir, é possível chamá-lo simplesmente de Wolfgang Amadeus Mozart, nome legado à posteridade, no qual a palavra Theophilus é utilizada na forma latina de Amadeus; Mozart, por sua vez, durante toda a vida preferiu utilizá-la na grafia francesa, Amadé.

Nascido na pequena cidade austríaca de Salzburg, desde pequeno Mozart se viu envolvido com música. Seu pai, o violinista e compositor Leopold Mozart, foi um dos grandes nomes de seu tempo, e o método de violino dele é, ainda hoje, importante referência em termos de técnica de execução de instrumentos de arco do século XVIII.

Tão logo começou a dar sinais de excepcional talento – sua primeira composição foi elaborada quando ele tinha apenas 5 anos –, o pai tratou de inserir a criança no mercado musical, agendando apresentações nas mais diferentes casas reais da Europa. Se hoje não é aceita a ideia de pais que vendem a infância dos filhos, vale lembrar que Leopold fez algo comum na época, quando a prole era vista como uma força adicional de trabalho. Caso os filhos fossem abençoados com algum dom especial – tal como era evidente no jovem Wolferl (apelido familiar) –, eles se tornavam fonte de obtenção de riquezas.

 

De jovem promessa a um problema social

Atualmente, a linda e rica cidade de Salzburg é uma espécie de Meca para amantes da música clássica, em especial durante o verão europeu, quando abriga o mais exuberante festival de música do planeta. Porém, à época de Mozart, o “burgo do sal” era um lugar distante dos ares cosmopolitas da então capital do império austro-húngaro, Viena. Após o fim de seus périplos como menino-prodígio – ocasião em que entrou em contato com outros músicos, complementando a formação musical recebida do pai –, Wolfgang viu-se obrigado a voltar para a provinciana terra natal e ficar a serviço de Hieronymus Colloredo, príncipe-arcebispo que então comandava a cidade com mãos de ferro e que se mostrou especialmente impaciente e irredutível para com os ímpetos de seu jovem serviçal.

Em 1781, aos 25 anos, Mozart decidiu mudar-se para Viena, ainda a serviço do arcebispo de Salzburg. Um ano após chegar à cidade, casou-se com Constanze Weber, com quem viria a ter seis filhos, dos quais apenas dois sobreviveram à infância. Na capital, tentou a sorte de diversas maneiras, mas viu seus planos sistematicamente sabotados por um grande vilão...

Muito provavelmente você deve ter pensado em Antonio Salieri, compositor italiano difamado pelo filme Amadeus. Em termos dramáticos, trata-se de um enredo e tanto, mas a verdade histórica é outra: o grande algoz de Mozart continuava sendo o arcebispo, que restringia o quanto podia as atividades do compositor. Cansado da perseguição, por fim rompeu unilateralmente os vínculos com seu empregador. Do ponto de vista financeiro, o resultado não poderia ter sido mais desastroso, pois a insubordinação de Mozart lhe fechou uma série de portas, já que qualquer um que o contratasse de forma fixa estaria cometendo uma afronta contra uma importante autoridade local.

Assim, Mozart viu-se obrigado a atuar como músico free-lancer. Muito admirado por suas habilidades como pianista, tornou-se professor de aulas particulares, que, no entanto, lhe eram extremamente enfadonhas. Ocasionalmente, a publicação de algumas de suas obras e, mais raramente, algumas encomendas de ópera lhe rendiam dividendos. A rica diversidade de seu catálogo é, ironicamente, um reflexo dessas demandas que a dura vida de músico autônomo lhe impingiu.

O tesouro musical que Mozart nos legou inclui 22 óperas, 41 sinfonias, 23 quartetos de cordas, 18 sonatas para piano, 27 concertos para piano e outros tantos para solistas e formações variadas, além de uma infinidade de serenatas, missas e músicas nos mais diferentes gêneros. Sua obra, logo após sua morte, passou a servir de referência para gerações de compositores, se firmando como um dos mais importantes pilares de monumento sonoro que é a música clássica.

Para além do empenho e da seriedade, a criação de Mozart também contém amostras que apresentam outra faceta de sua personalidade, como peças em que ironiza sua profissão – tal como a Brincadeira musical (na qual a orquestra encerra a obra num divertido e grotesco acorde escrito propositalmente dissonante) e uma cômica Marcha funebre del Sigr. Maestro Contrapunto (na qual comete vários “erros” de condução melódica, de maneira irônica conferindo uma sonoridade levemente romântica). Isso para não falar da curiosa Musikalisches Würfelspiel, na qual o pianista tem que “montar” a partitura a partir de uma sequência numérica gerada por lances de dados.

Entretanto, toda a criatividade e a produtividade não foram suficientes para que Mozart pudesse viver com sossego em Viena, e ele, frequentemente, viu-se afogado em dívidas e em desgastantes negociações com agiotas. Durante tais tormentas financeiras, Mozart encontrou ajuda em seus irmãos de maçonaria e, veja só, em Salieri, que chegou a interceder pessoalmente em prol da execução das obras de Mozart na corte.

 

“Mozart não era um inovador”

A afirmação acima é do maestro e musicólogo Nikolaus Harnoncourt, que, apesar do que possa parecer, não desmerece a grandeza da obra e o inegável talento de Mozart. Ocorre que, na segunda metade do século XVIII, o estilo musical vigente na Europa se encontrava num avançado grau de estabilidade. O artesanato da composição era realizado por meio de uma série de regras e convenções musicais consolidadas que, apesar da singularidade inerente a cada obra, tinham sido elaboradas a partir de hábitos e clichês próprios da atividade musical cotidiana. Mozart realizou sua obra sobre o alicerce dessas convenções, compartilhadas por diversos contemporâneos dele.

Esse estilo de composição (hoje designado como “clássico”) e sua consolidação durante a vida de Mozart explica, em parte, a profícua produção, à medida que seu trabalho tinha um forte aspecto artesanal, em que diversas etapas da criação musical eram realizadas de forma automática ou eventualmente, por outra pessoa. Vários são os documentos que comprovam isso. O exemplo mais famoso é o Réquiem que, apesar de não ter sido completado por Mozart (que falecera antes), foi posteriormente concluído, a partir de esboços que deixara, por seu aluno Franz Xavier Süssmayer.

Invenção como sinônimo de revolução e subversão das convenções está longe de ser o ideal da estética do Classicismo. Entretanto, apesar de formal e estilisticamente “previsível”, cada obra de Mozart é singular nas filigranas da escritura. Quando executada, a música transmite a ideia da perfeição, através da qual não raro se vislumbra o quão sublime a arte pode ser.

[Reprodução]
[Reprodução]

Linha do tempo

1756
Nasce em 27 de janeiro, em Salzburg

1761
Com apenas cinco anos compõe suas primeiras obras

1762
Uma viagem a Munique inicia um longo período de viagens junto com o pai

1764
Aos oito anos, compõe sua primeira sinfonia

1767
Com onze anos, inicia sua produção lírica com o oratório O dever do primeiro mandamento 

1772
É admitido em um cargo menor no corpo musical de Salzburg

1777
Em Mannheim, inicia um caso com Aloysia Weber, irmã de sua futura esposa

1778
Estreia com sucesso na capital francesa a obra que ficaria conhecida como Sinfonia Paris

1781
Muda-se definitivamente para Viena

1782
Casa-se com Constanze Weber

1784
Conhece Joseph Haydn, a quem dedica vários quartetos de cordas

1786
Com As bodas de Fígaro inicia parceria com o libretista Lorenzo da Ponte

1787
Viagem à Praga, onde experimenta em vida de grande sucesso

1791
Compõe sua última ópera, A clemência de Tito, e o singspiel A flauta mágica

1791
Morre em 5 de dezembro, em Viena, provavelmente vítima de uma febre miliar